A Guerra Fria · Expressões

A Apollo 13 disse mesmo ‘Houston, temos um problema’?

A resposta curta

Não com essas palavras. Depois que um tanque de oxigênio explodiu, em 13 de abril de 1970, Jack Swigert avisou pelo rádio: “Ok, Houston, tivemos um problema aqui.” Quando Houston pediu que repetisse, Jim Lovell disse: “Houston, tivemos um problema.” O presente, “temos um problema”, é do filme Apollo 13, de 1995, assim como “Falhar não é uma opção”.

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A frase que virou bordão

No Brasil, “Houston, temos um problema” virou expressão do dia a dia. É o que se diz quando o pneu fura, quando a internet cai, quando a reunião desanda, quase sempre com humor. Pouca gente sabe que a frase, assim, no presente, nunca foi dita no espaço. Ela vem do cinema.

O que a tripulação disse de fato

A Apollo 13 seria o terceiro pouso na Lua, na região de Fra Mauro. Decolou em 11 de abril de 1970 com Jim Lovell, Jack Swigert e Fred Haise. Swigert entrou na tripulação dias antes do lançamento, porque o titular, Ken Mattingly, tinha sido exposto à rubéola. Na noite de 13 de abril, pelo horário de Houston, com quase 56 horas de voo e a mais de 300.000 quilômetros da Terra, o controle da missão pediu que a tripulação ligasse os ventiladores que misturavam o oxigênio nos tanques, uma tarefa de rotina. Instantes depois, veio um tranco.

Na transcrição do Apollo Flight Journal, as vozes se atropelam: Swigert começa “Ok, Houston”, Lovell repete “Houston”, e Swigert termina a frase.

Ok, Houston, tivemos um problema aqui.

Jack Swigert, Apollo 13, 13 de abril de 1970 (Apollo Flight Journal, 55:55:20)

Em Houston, o astronauta Jack Lousma pediu que repetissem. Lovell repetiu e deu o detalhe técnico: “Houston, tivemos um problema. Tivemos uma queda de tensão no barramento principal B.” Ou seja: um dos dois circuitos elétricos principais da nave tinha perdido força de repente. Haise contou que tinham ouvido um estrondo bem forte. Uns catorze minutos depois, Lovell olhou pela janela e viu o que os instrumentos não mostravam: a nave estava soltando alguma coisa no espaço.

O que tinha acontecido

O tanque de oxigênio número 2, no módulo de serviço, atrás da tripulação, tinha falhado. A comissão de investigação da NASA, presidida por Edgar Cortright, achou a causa num dano anterior ao lançamento: os interruptores do aquecedor do tanque eram feitos para os 28 volts da nave, não para os 65 volts usados em solo, e, numa operação de esvaziamento do tanque no Cabo Kennedy, eles ficaram travados na posição ligada. O aquecedor esquentou demais e queimou o isolamento dos fios dentro do tanque. Quando Swigert ligou os ventiladores, a fiação exposta provocou fogo. A explosão também danificou o outro tanque de oxigênio, que foi vazando nas horas seguintes. Sem oxigênio, as células de combustível que geravam a eletricidade e a água da nave começaram a parar. O pouso estava cancelado.

O módulo lunar como bote salva-vidas

A tripulação desligou o módulo de comando, Odyssey, para poupar as baterias para a reentrada, e se mudou para o módulo lunar, Aquarius, feito para manter dois homens vivos numa estadia curta na Lua. Ele manteve três vivos por cerca de três dias e meio. A nave contornou a Lua e usou o motor de descida do Aquarius para acertar e acelerar a volta. A cabine ficou perto de zero grau, e o gás carbônico foi se acumulando até que engenheiros em Houston descobriram como encaixar os filtros quadrados do módulo de comando nos encaixes redondos do módulo lunar, com sacos plásticos, papelão e fita adesiva. Em 17 de abril de 1970, a Odyssey pousou no Pacífico Sul, com os três vivos.

De onde vem o “temos”

Em 1995, o filme Apollo 13, de Ron Howard, baseado no livro Lost Moon, de Lovell e Jeffrey Kluger, pôs a frase na boca de Tom Hanks, no papel de Lovell, e no presente. O mesmo filme deu ao diretor de voo Gene Kranz, vivido por Ed Harris, a frase “Falhar não é uma opção”. As duas saíram dos roteiristas, não da missão; Kranz depois usou a segunda como título das memórias dele, em 2000. Outra frase famosa da Apollo também é citada errado: veja o que Armstrong disse ao pisar na Lua.

Fontes

  • Apollo Flight Journal, Apollo 13, Day 3 part 2: “Houston, we’ve had a problem”, 55:52–56:10 (NASA; apollojournals.org)
  • Report of the Apollo 13 Review Board (relatório Cortright, NASA, junho de 1970)
  • Jim Lovell e Jeffrey Kluger, Lost Moon (1994)
  • Apollo 13, filme de Ron Howard (Universal, 1995)