A resposta curta
Disse, em inglês: “That’s one small step for (a) man; one giant leap for mankind”, ou seja, “um pequeno passo para (um) homem; um salto gigantesco para a humanidade”. O mundo ouviu a frase sem o artigo, e por isso ela circula como “um pequeno passo para o homem”. Armstrong disse que quis dizer “para um homem”: uma pessoa só.
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Doze minutos até a Tranquilidade
Em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Buzz Aldrin desceram no módulo lunar Eagle, a Águia, rumo ao Mar da Tranquilidade, enquanto Michael Collins ficava em órbita no Columbia. Cinco minutos depois do início da descida, o computador de bordo acendeu o alarme 1202: tinha mais trabalho do que dava conta. Em Houston, os controladores avaliaram que dava para seguir, e o astronauta Charlie Duke, que falava com a tripulação, respondeu pelo rádio que a nave estava liberada apesar do alarme. Vieram outros alarmes, entre eles um 1201, e a resposta foi sempre a mesma: seguir.
Aí Armstrong viu para onde o piloto automático os levava: uma cratera cheia de pedregulhos do tamanho de carros. Ele assumiu os controles e seguiu voando baixo, à procura de um trecho limpo. Duke anunciou “60 segundos”, depois “30 segundos”, o tempo até um limite de combustível que obrigaria a escolher entre pousar e abortar. Aldrin avisou que as sondas sob os pés da nave tinham tocado o solo, e Armstrong desligou o motor. O medidor tinha sido enganado pelo combustível que balançava no tanque: sobravam cerca de 45 segundos.
Houston, aqui Base da Tranquilidade. A Águia pousou.
No Brasil eram 17h17 de domingo. O passo propriamente dito viria horas depois, às 23h56 pelo horário de Brasília. No mundo todo, estima-se que 600 milhões de pessoas acompanharam o pouso pela televisão.
A frase
Cerca de seis horas e meia depois do pouso, Armstrong desceu de costas a escada da Eagle diante de uma câmera de televisão em preto e branco. Ele contou que pensou nas palavras nas horas seguintes ao pouso. A bota esquerda tocou o solo às 02:56 UTC de 21 de julho, e segundos depois ele falou:
Este é um pequeno passo para (um) homem; um salto gigantesco para a humanidade.
“O homem” ou “um homem”?
Em inglês, man sem artigo quer dizer o ser humano em geral, como “o homem” em português. Foi isso que o mundo ouviu: “for man”. Assim, homem e humanidade viram a mesma coisa, e a frase perde o contraste. Com o artigo, a man, o sentido fecha: um passo de uma pessoa, um salto de todos. Em português a diferença é a mesma de “o homem” para “um homem”, e a versão que pegou por aqui, “um pequeno passo para o homem”, guarda justamente o deslize da gravação.
Armstrong afirmou depois do voo que quis dizer “para um homem” e achava que tinha dito, embora reconhecesse que a palavra não aparecia com clareza na fita. Em 2006, um jornalista e empresário, Peter Shann Ford, anunciou ter achado o “a” na forma de onda da transmissão. Análises posteriores, feitas por especialistas em áudio, não confirmaram a descoberta. Até hoje ninguém provou nada de forma convincente, para um lado ou para o outro.
Por que a transcrição traz “(a)”
O Apollo Lunar Surface Journal, o registro comentado da NASA sobre cada caminhada na Lua, põe o artigo entre parênteses. É uma forma de respeitar o que Armstrong quis dizer sem afirmar que a palavra pode ser ouvida. A placa que ele e Aldrin deixaram na perna da Eagle dizia a mesma coisa de outro jeito: “Viemos em paz em nome de toda a humanidade.” A meta tinha sido fixada oito anos antes, nos discursos de Kennedy sobre a Lua; a outra frase famosa da Apollo que vive sendo citada errado está em Houston, temos um problema.
Fontes
- Apollo Lunar Surface Journal, Apollo 11: “The First Lunar Landing” e “One Small Step”, 102:33–109:25 (NASA; apollojournals.org)
- NASA, Apollo 11 Mission Report (1969)
- James R. Hansen, First Man: The Life of Neil A. Armstrong (2005)