A resposta curta
Talvez. Gênesis 37:3 a chama de ketonet passim, e ninguém sabe ao certo o que passim quer dizer. “Muitas cores” vem da antiga tradução grega e de muitas Bíblias depois dela. Vários estudiosos leem uma túnica longa, com mangas, roupa de quem não trabalhava no campo. De todo jeito, ela marcava José como o filho preferido.
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O que o Gênesis diz
Jacó tem doze filhos de quatro mulheres, e não esconde qual deles ama mais.
Ora, Israel amava mais a José do que a todos os seus filhos, porque era o filho da sua velhice; e fez para ele uma túnica de muitas cores. Seus irmãos viram que o pai o amava mais do que a todos os seus irmãos, e o odiaram, e não conseguiam falar pacificamente com ele.
Repare no que o texto não diz. Ele nunca descreve as cores, o tecido ou o corte. Diz apenas que o presente era um sinal, e que os irmãos o entenderam na hora.
A palavra que ninguém decifra
O hebraico é ketonet passim. Ketonet é a palavra comum para túnica, a camisa longa que todo mundo usava; Deus faz a mesma peça, de pele, para Adão e Eva (Gênesis 3:21). O problema é passim, uma palavra que só aparece nesta história e em mais uma.
- Muitas cores. A Septuaginta, a tradução grega feita antes da época de Jesus, a traduziu como uma túnica variada, de muitas cores. Daí veio a “túnica de muitas cores” das Bíblias, e o Brasil ficou com a imagem popular da túnica colorida de José.
- Mangas compridas. Em hebraico e aramaico, pas pode significar a palma da mão ou a planta do pé. A mão que escreve em Daniel 5:5 é, ao pé da letra, “o pas da mão”. Então passim pode ser uma túnica que vai até os pulsos e os tornozelos: uma túnica longa, com mangas.
- Leituras rabínicas. Rashi, no século XI, entendeu um manto de lã fina. Ele também registrou um midrash que lê as letras de passim como as quatro etapas da queda de José: Potifar, mercadores, ismaelitas e midianitas.
Uma túnica de princesa
A expressão aparece em mais uma história, e ela resolve o que a túnica significava, se não como era.
Ela usava uma túnica de várias cores, pois era assim que as filhas do rei que eram virgens se vestiam.
Tamar, filha do rei Davi, veste uma ketonet passim. A própria Bíblia Portuguesa Mundial traduz o mesmo hebraico de dois jeitos nas duas histórias, “muitas cores” e “várias cores”. De todo modo, era roupa da realeza, não de trabalho. Uma túnica longa, de mangas compridas, não serve para pastorear ovelhas. Em José ela dizia: este filho não trabalha no campo e está acima dos irmãos.
E podia ser colorida também? Bem possível. Uma pintura num túmulo de Beni Hassan, no Egito, de cerca de 1890 a.C., mostra um grupo de viajantes asiáticos, vindos do Levante, chegando ao Egito com roupas tecidas em padrões vivos de listras e ziguezagues.
A túnica que conta a história
Seja como for, a túnica move o enredo. Os irmãos a arrancam antes de jogar José no poço (Gênesis 37:23). Matam um bode, mergulham a túnica no sangue e a levam para casa: “Examine-a, agora, e veja se é a túnica do seu filho ou não” (37:32). Jacó, que um dia enganou o próprio pai com peles de cabrito (Gênesis 27:16), é enganado com sangue de bode. As roupas continuam marcando a sorte de José: a veste deixada na mão da mulher de Potifar (39:12), depois o linho fino que recebe de Faraó (41:42).
As cores venceram no fim. Tim Rice e Andrew Lloyd Webber escreveram em 1968, para uma escola de Londres, o musical Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat, e Dolly Parton fez de “Coat of Many Colors” (1971) uma canção sobre um casaco que a mãe costurou com retalhos. Os irmãos de José, e a família grande dele, estão em Quem eram os 12 filhos de Jacó?
Fontes
- Gênesis 37:1–36; 3:21; 27:16; 39:12; 41:42
- 2 Samuel 13:18–19; Daniel 5:5
- Septuaginta, Gênesis 37:3
- Rashi sobre Gênesis 37:3
- Túmulo de Khnumhotep II, Beni Hassan, Egito (c. 1890 a.C.), pintura de viajantes asiáticos
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.