A resposta curta
O Gênesis diz só “um homem”, que lutou com Jacó até o raiar do dia no vau do Jaboque (Gênesis 32:24). Jacó conclui que viu Deus face a face, e Oseias chama o lutador de anjo. A tradição judaica fala do anjo de Esaú; muitos cristãos veem o próprio Deus. O texto não lhe dá nome.
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Uma noite no vau
Jacó volta para casa depois de vinte anos em Harã, e Esaú, o irmão que ele enganou, vem ao seu encontro com quatrocentos homens. Naquela noite, Jacó faz as mulheres, os filhos e tudo o que tem atravessarem o vau do Jaboque, um rio que corre pela atual Jordânia com o nome de Zarqa. Depois fica para trás, sozinho.
Jacó ficou sozinho, e lutou com um homem ali até o raiar do dia. Quando viu que não prevalecia contra ele, o homem tocou na articulação da coxa de Jacó, e a articulação da coxa de Jacó se deslocou enquanto lutava com ele.
A luta vem sem aviso e sem explicação. O estranho não consegue derrubar Jacó, mas com um toque desloca o quadril dele. Quer ir embora antes que o dia clareie. Jacó, ferido e ainda agarrado, não o solta sem uma bênção. O hebraico brinca com os sons: Jacó, Ya’aqov, luta, ye’aveq, no Jaboque, Yabboq.
Um homem, Deus ou um anjo?
A própria Bíblia dá três respostas.
- Um homem. O narrador diz ish, um homem, e nada mais (32:24).
- Deus. O estranho diz a Jacó que ele lutou “com Deus e com os homens” (32:28). Jacó chama o lugar de Peniel, “face de Deus”, e diz: “Vi a Deus face a face, e a minha vida foi preservada” (32:30).
- Um anjo. Séculos depois, o profeta Oseias reconta a noite com um detalhe novo.
De fato, ele lutou com o anjo e prevaleceu; ele chorou e lhe suplicou.
O Jacó de Oseias chora e implora. E quando Jacó pergunta o nome do estranho, recebe só outra pergunta: “Por que você pergunta qual é o meu nome?” (32:29). A mesma recusa espera o pai de Sansão quando ele pergunta o nome do “anjo do SENHOR” (Juízes 13:17–18). Em muitas histórias da Bíblia, esse anjo fala como o próprio Deus, e é assim que uma só cena comporta as três respostas.
O que os leitores concluíram
A tradição judaica, em geral, fala de um anjo. No midrash Gênesis Rabá, o rabino Hama bar Hanina diz que era o anjo da guarda de Esaú (77:3): na véspera de encarar o irmão, Jacó luta com o príncipe celeste dele. Rashi repete a ideia. Maimônides entendeu a luta toda como uma visão profética (Guia dos Perplexos 2.42).
Muitos cristãos, entre eles Martinho Lutero, viram no estranho o próprio Deus, e alguns, o Cristo aparecendo antes de nascer. Em muitas igrejas, a frase de Jacó, “Não o deixarei ir, a não ser que me abençoe” (32:26), virou modelo de oração perseverante. Alguns estudiosos modernos enxergam por baixo um conto popular mais antigo: um espírito noturno que guarda a travessia de um rio e precisa sumir ao amanhecer. E muitos leitores veem ali a luta de Jacó consigo mesmo, na véspera de reencontrar o irmão que prejudicou.
O mancar que ficou
Fosse quem fosse, o estranho deixa uma marca. “O sol nasceu sobre ele quando passava por Peniel, e ele mancava por causa da sua coxa” (32:31). O Gênesis fecha a cena com uma regra alimentar: os israelitas não comem “o tendão do quadril” (32:32). Os açougueiros kosher ainda retiram o nervo ciático, um trabalho chamado nikkur, e muitos fora de Israel simplesmente não vendem o quarto traseiro.
A cena atraiu pintores por séculos: Rembrandt em 1659, Eugène Delacroix numa capela da igreja de Saint-Sulpice, em Paris, concluída em 1861, e Paul Gauguin em A visão depois do sermão (1888), em que camponesas bretãs de touca branca assistem à luta. Jacó segue mancando ao encontro de Esaú, que corre para abraçá-lo. Para o novo nome que ele levou dali, veja o que significa o nome Israel.
Fontes
- Gênesis 32:1–32; 33:1–4
- Oseias 12:2–5; Juízes 13:17–18
- Gênesis Rabá 77:3; Rashi sobre Gênesis 32:25
- Maimônides, Guia dos Perplexos 2.42
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.