A resposta curta
Porque estava faminto e deu mais valor à comida do que ao seu direito. Em Gênesis 25, Esaú chega exausto do campo e pede o ensopado vermelho de Jacó. Jacó cobra a primogenitura, e Esaú jura: “Eis que estou a ponto de morrer. De que me serve o direito de primogenitura?” O texto conclui: Esaú desprezou o seu direito.
Revisado em
Cinco versículos ao pé da panela
Esaú e Jacó são gêmeos e brigam desde o ventre da mãe. Esaú vira “um caçador habilidoso, um homem do campo”. Jacó é “um homem pacato, que habitava em tendas”. Isaque prefere Esaú, por causa da caça; Rebeca prefere Jacó (Gênesis 25:27–28). Um dia Jacó está cozinhando quando Esaú chega do campo, morto de fome. Nem diz o nome do prato. Em hebraico, ele aponta para a panela, ha-adom ha-adom ha-zeh, o vermelho, esse vermelho aí, e usa um verbo raro para engolir que não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia.
Jacó não oferece. Negocia.
Esaú disse: “Eis que estou a ponto de morrer. De que me serve o direito de primogenitura?” Jacó disse: “Jure-me primeiro.” Ele lhe jurou. Ele vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó.
Seguem cinco verbos rápidos: “Ele comeu e bebeu, levantou-se e seguiu o seu caminho.” E o narrador, que quase nunca julga ninguém em Gênesis, dá o veredito: “Assim, Esaú desprezou o seu direito de primogenitura” (25:34).
O que ele entregou
A primogenitura, bekhorá em hebraico, era do filho mais velho. Significava liderar a família depois da morte do pai e receber parte dobrada da herança, regra que depois entrou na lei.
mas ele reconhecerá o primogênito, o filho da desprezada, dando-lhe uma porção dobrada de tudo o que possui; pois ele é o princípio da sua força. O direito da primogenitura é dele.
Nessa família havia mais em jogo do que rebanhos. Deus tinha prometido a Abraão uma terra e uma descendência, e a promessa descia de geração em geração. Esaú trocou o seu lugar nessa história por um prato.
Ele ia morrer mesmo?
A maioria dos leitores acha que era exagero, como quem chega em casa dizendo que está morrendo de fome. O texto não mostra perigo nenhum, só pressa. Por isso o narrador culpa Esaú, e não Jacó. A carta aos Hebreus segue a mesma linha: “profano, como Esaú, que por uma única refeição vendeu o seu direito de primogenitura” (Hebreus 12:16).
Os rabinos acrescentaram um cenário mais sombrio. O Talmude diz que naquele mesmo dia Abraão morreu, e que Jacó cozinhava lentilhas, a comida tradicional do luto, para consolar o pai (Bava Batra 16b). As contas permitem. Isaque nasceu quando Abraão tinha 100 anos, os gêmeos quando Isaque tinha 60, e Abraão morreu com 175 (Gênesis 21:5; 25:7, 26). Os meninos tinham quinze anos quando o avô foi sepultado.
Muitos leitores de hoje ficam do lado de Esaú: Jacó cobra caro de um irmão faminto. Gênesis conta sem comentar. Guarda o julgamento para Esaú e deixa o leitor julgar Jacó.
O prato de lentilhas
A refeição dá a Esaú um segundo nome: “Por isso o seu nome foi chamado Edom” (25:30), de adom, vermelho. Edom virou o nome do seu povo, nas montanhas a sudeste do mar Morto. Só no fim o texto conta o que havia na panela: “pão e ensopado de lentilhas” (25:34). Daí vem a expressão brasileira “vender a primogenitura por um prato de lentilhas”, abrir mão de uma coisa valiosa por um prazer imediato. Em inglês, o prato virou “a mess of pottage”, frase que nem existe no texto: vem do título de um capítulo de uma Bíblia inglesa de 1537.
Primeiro a primogenitura, depois a bênção
Em hebraico, duas palavras soam quase iguais: bekhorá, primogenitura, e berakhá, bênção. O ensopado não resolveu tudo. Anos depois, Isaque ainda pretende abençoar Esaú como primogênito, e Jacó precisa de um segundo golpe, com peles de cabrito e roupas emprestadas, para levar a bênção também. Esaú percebe o padrão: “Ele tomou o meu direito de primogenitura. Veja, agora ele tomou a minha bênção” (Gênesis 27:36). Vinte anos depois, o irmão que perdeu as duas coisas corre para abraçar Jacó e recusa os presentes: “Eu já tenho o bastante, meu irmão” (33:9).
Fontes
- Gênesis 25:19–34; 27:1–41; 33:1–11
- Gênesis 21:5; 25:7, 26
- Deuteronômio 21:15–17; Hebreus 12:16–17
- Talmude Babilônico, Bava Batra 16b
- Bíblia de Matthew (1537), título de Gênesis 25
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.