A resposta curta
A escada de Jacó é a que ele viu em sonho em Betel, em Gênesis 28: apoiada na terra, com o topo no céu, anjos subindo e descendo por ela e Deus no alto prometendo protegê-lo. Jacó acordou dizendo: “Certamente o SENHOR está neste lugar, e eu não sabia.” A palavra hebraica sugere uma escadaria ou rampa.
Revisado em
O sonho de um fugitivo
Jacó acabou de roubar a bênção do irmão, e Esaú jurou matá-lo. Ele sai sozinho de Berseba, rumo ao norte, para a casa do tio em Harã. Ao pôr do sol para num “certo lugar”, pega uma das pedras dali para pôr debaixo da cabeça e se deita ao relento (Gênesis 28:10–11).
Ele sonhou e viu uma escada apoiada na terra, e seu topo chegava ao céu. Eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela.
No alto está o Senhor, que repete ao fugitivo a promessa feita a Abraão: esta terra, uma descendência como o pó da terra, uma bênção para todas as famílias. E acrescenta algo novo para quem está deixando a casa: “Eis que eu estou com você e o guardarei por onde quer que você vá” (28:15).
Escada de mão ou escadaria?
Em português a dúvida quase some, porque “escada” serve para as duas coisas. Em inglês, não: as Bíblias tradicionais dizem ladder, a escada de mão com degraus. A palavra hebraica é sullam, que só aparece aqui na Bíblia. Parece vir de uma raiz que significa amontoar, como numa rampa ou num aterro. Muitos estudiosos a comparam com o acádio simmiltu, escadaria, e pensam nos degraus de um zigurate, a torre-templo da Mesopotâmia. As palavras de Jacó apontam para o mesmo lado. Ele chama o lugar de “porta do céu” (28:17), e o nome Babilônia, Bab-ili, queria dizer porta do deus.
O eco leva de volta a Babel, onde os construtores queriam uma torre “cujo topo chegue até o céu” (Gênesis 11:4). Lá, os homens tentam subir até o céu. Em Betel, o céu desce até um homem dormindo no chão.
Primeiro sobem, depois descem
Os rabinos repararam na ordem: os anjos sobem antes de descer. Rashi explicou que os anjos que guardavam Jacó na terra de Israel voltavam para casa, enquanto outros desciam para acompanhá-lo no estrangeiro. Um midrash nota que o hebraico “por ela” também pode ser lido “por ele”: os anjos sobem para contemplar a imagem de Jacó, gravada no alto, e descem para encontrá-lo dormindo (Gênesis Rabá 68:12).
A casa de Deus
Jacó despertou do seu sono e disse: “Certamente o SENHOR está neste lugar, e eu não sabia.” Ele teve medo e disse: “Quão temível é este lugar! Esta não é outra senão a casa de Deus, e esta é a porta do céu.”
Ele ergue a pedra que lhe serviu de travesseiro como coluna, derrama óleo sobre ela e troca o nome da cidade de Luz para Betel, “casa de Deus” (28:18–19). Depois faz um voto cauteloso: se Deus o trouxer de volta em paz, dará o dízimo de tudo. Betel virou um dos grandes santuários de Israel. Séculos depois, o rei Jeroboão pôs ali um bezerro de ouro (1 Reis 12:29).
A escada depois do Gênesis
No Evangelho de João, Jesus chama Natanael de “um verdadeiro israelita, em quem não há engano”, uma alusão a Jacó, que enganou para ficar com a bênção. Depois retoma o sonho.
de agora em diante vocês verão o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.
Os cristãos entenderam que o próprio Jesus é a escada entre o céu e a terra. No século VII, João Clímaco, abade no monte Sinai, escreveu a Escada do Paraíso, trinta degraus da vida espiritual; o apelido dele vem do grego klimax, escada. A imagem continuou subindo, até a escadaria de luz em espiral que William Blake pintou e o spiritual afro-americano “We Are Climbing Jacob’s Ladder”.
Fontes
- Gênesis 28:10–22; 11:1–9
- João 1:47–51; 1 Reis 12:28–29
- Gênesis Rabá 68:12; Rashi sobre Gênesis 28:12
- João Clímaco, Escada do Paraíso (século VII)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.