História do Brasil · História

O Brasil foi descoberto por acaso?

A resposta curta

Não foi erro de rota. A frota de Cabral ia para a Índia e abriu de propósito para sudoeste, a volta do mar, para pegar os ventos de oeste. Se Portugal também esperava achar terra ali, ainda se discute: os cronistas do século XVI falam em acaso, muitos historiadores desde 1850, em plano, e prova definitiva ninguém achou.

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Para onde Cabral ia

A frota que saiu de Lisboa em 9 de março de 1500 ia para Calicute, na Índia, atrás de pimenta, canela e cravo. Era a segunda viagem portuguesa até lá. A primeira, de Vasco da Gama, tinha chegado em maio de 1498, e o diário de bordo guarda a resposta que os portugueses deram a quem quis saber o que eles vinham fazer tão longe:

E perguntaram-lhe que vínhamos buscar tão longe, e ele lhe respondeu: “Vimos buscar cristãos e especiaria.”

Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama (atribuído a Álvaro Velho), Calicute, maio de 1498

Oficialmente, ninguém embarcou em Lisboa, em 1500, para procurar terra nova. A missão declarada era comercial, e o roteiro era o de Gama.

O desvio que não era desvio

Para dobrar a África, não adiantava seguir a costa: junto dela, ventos e correntes jogam contra quem desce para o sul. O truque, aprendido em décadas de viagens, era a volta do mar. Abria-se para sudoeste em pleno Atlântico até achar os ventos de oeste, que então empurravam os navios para leste, rumo ao cabo da Boa Esperança. Em 1497, Gama passou uns três meses sem ver terra fazendo isso. As instruções de Cabral que chegaram até nós, com conselhos do próprio Gama, mandam fazer o mesmo.

Depois das Canárias e de Cabo Verde, foram semanas de mar aberto. Em 21 de abril, os marinheiros viram boiando ervas compridas, que chamavam de botelho e rabo-de-asno. Na manhã seguinte passaram aves, os fura-buchos. No fim da tarde de 22 de abril, apareceu o Monte Pascoal. A frota tinha aberto tanto para oeste que deu com uma costa a uns 17 graus de latitude sul.

A versão da frota perdida, que muita gente aprendeu na escola, não se sustenta. O desvio para oeste era o caminho normal da Índia.

Acaso ou plano

A pergunta que sobra é outra: Portugal sabia, ou desconfiava, que havia terra ali? Os cronistas do século XVI, como Castanheda, João de Barros e Damião de Góis, falam em acaso. Desde 1850, muitos historiadores defendem que houve intenção.

O argumento mais citado é um livro. No Esmeraldo de situ orbis, escrito entre 1505 e 1508, o navegador Duarte Pacheco Pereira conta que o rei o mandou, em 1498, descobrir a parte ocidental. Para quem defende o plano, é sinal de que Portugal já tinha ido olhar. Para quem duvida, é uma frase só, escrita anos depois da viagem que menciona, e prova definitiva ninguém achou.

Há quem olhe também para 1494. No Tratado de Tordesilhas, Portugal conseguiu empurrar a linha do papa de 100 para 370 léguas a oeste de Cabo Verde. Uma leitura diz que era para ter mar de sobra para a volta do mar. Outra, que Portugal já desconfiava de terra a oeste. As duas cabem nos documentos. E havia concorrência: em janeiro de 1500, o espanhol Pinzón já tinha avistado o Nordeste, como conta Quem descobriu o Brasil?

Somando o que os documentos sustentam: a frota ia para a Índia, o grande desvio para oeste foi deliberado, e a terra apareceu no caminho. Se o rei esperava esse encontro, o debate segue aberto. Quem era o homem no comando está em Quem foi Pedro Álvares Cabral?

Fontes

  • Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama (1497–1499), atribuído a Álvaro Velho, ed. Herculano e Castello de Paiva (1861)
  • Pero Vaz de Caminha, carta a dom Manuel, 1º de maio de 1500, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa
  • Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de situ orbis (c. 1505–1508)
  • William Greenlee, The Voyage of Pedro Álvares Cabral (Hakluyt Society, 1938)
  • Boris Fausto, História do Brasil (1994)