História do Brasil · Números

Quantos indígenas viviam no Brasil em 1500?

A resposta curta

Milhões. Ninguém contou, então os historiadores trabalham com estimativas, que vão de uns 2 a mais de 5 milhões no território do Brasil atual. Eram centenas de povos, falando centenas de línguas. Na praia de Porto Seguro, quem viu a frota de Cabral chegar foram os tupiniquins. O Censo de 2022 contou 1,69 milhão de indígenas.

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Ninguém contou

Em 1500, ninguém fez censo de ninguém. A frota de Cabral passou dez dias num pedaço da costa da Bahia e seguiu viagem para a Índia. Tudo o que se diz sobre a população daquele ano, portanto, é estimativa. Nas obras de John Hemming e de Manuela Carneiro da Cunha, as estimativas vão de uns 2 a mais de 5 milhões de pessoas no território do Brasil de hoje.

Por que a faixa é tão larga? Porque a conta é feita de trás para a frente. Os historiadores partem de cartas de jesuítas e de relatos de cronistas, que descrevem aldeias e contam mortos, e calculam quanta gente cada região conseguia alimentar. Só que esses papéis foram escritos décadas depois do primeiro contato, com as epidemias já em curso. Quanto mais gente se supõe que tinha morrido antes de alguém escrever, maior fica o número. Há quem proponha números ainda maiores. O que é certo é a ordem de grandeza: milhões, não milhares.

Centenas de povos

Não era um povo só. Eram centenas, falando centenas de línguas. No litoral, de norte a sul, viviam sobretudo povos de língua tupi: potiguaras, caetés, tupinambás, tupiniquins. No interior e na Amazônia, viviam povos de outras famílias de línguas, como as do tronco macro-jê, as aruaques e as caribes.

Os cerca de vinte homens que esperaram o batel de Nicolau Coelho na boca de um rio, em 23 de abril de 1500, de arco na mão, eram tupiniquins. Moravam em aldeias de grandes casas comunais, e os portugueses que visitaram uma delas contaram que numa só casa dormiam trinta ou quarenta pessoas. Os vizinhos tupinambás vestiam mantos vermelhos de penas de guará.

O que Caminha não viu

Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária que costumada seja ao viver dos homens.

Pero Vaz de Caminha a dom Manuel, carta de 1º de maio de 1500, fólio 11v

Aqui o escrivão se engana, e o engano ajuda a entender os números. Os tupis não criavam bois, mas lavravam, sim. Abriam roças na mata e plantavam mandioca, milho, batata-doce e abóbora. O “inhame” que os portugueses provaram era, muito provavelmente, mandioca, a raiz da farinha, do beiju e da tapioca de hoje. Roça, pesca e caça sustentavam aldeias grandes. A velha ideia de uma terra “praticamente vazia” não resiste nem à carta do próprio Caminha.

Depois do contato

O contato começou com trocas. Machados e facas de ferro valiam muito para quem derrubava árvores com machado de pedra. Depois vieram a guerra, a escravização de indígenas para a lavoura e doenças trazidas da Europa, como a varíola e o sarampo, contra as quais ninguém aqui tinha defesa. Na Bahia, a varíola de 1562 e 1563 matou cerca de um terço da gente de três aldeias dos jesuítas, calculou o jesuíta Leonardo do Vale, em carta de 12 de maio de 1563. José de Anchieta conta que se falava em 30 mil mortos em dois ou três meses.

Os povos indígenas não sumiram da história. O Censo de 2022, do IBGE, contou 1,69 milhão de indígenas, de 391 povos, falando 295 línguas. Perto de Porto Seguro e do Monte Pascoal, onde os tupiniquins viram a frota chegar, vivem hoje os pataxós. Quem chegou primeiro àquela costa está em Quem descobriu o Brasil?. O que o escrivão anotou sobre a gente da praia está em O que foi a carta de Pero Vaz de Caminha?.

Fontes

  • Pero Vaz de Caminha, carta a dom Manuel, 1º de maio de 1500, fólio 11v, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa
  • Leonardo do Vale, carta de 12 de maio de 1563
  • IBGE, Censo Demográfico 2022
  • John Hemming, Ouro vermelho (Red Gold, 1978)
  • Manuela Carneiro da Cunha (org.), História dos índios no Brasil (1992)