História do Brasil · Significado

Por que o Brasil se chama Brasil?

A resposta curta

Por causa do pau-brasil, a árvore de miolo vermelho que dava uma tinta cor de brasa, cara na Europa. Cabral batizou a terra de Vera Cruz, que logo virou Terra de Santa Cruz, mas o comércio da madeira falou mais alto. Em 1552, o cronista João de Barros já reclamava que o povo só dizia Brasil.

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Primeiro, um nome santo

A frota de Pedro Álvares Cabral, a caminho da Índia, avistou terra em 22 de abril de 1500, no sul da Bahia. Era semana de Páscoa. Na carta ao rei dom Manuel, o escrivão Pero Vaz de Caminha registrou os primeiros nomes que os portugueses deram ao que viam.

Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra, a saber, primeiramente de um grande monte, mui alto e redondo, e de outras serras mais baixas ao sul dele, e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal, e à terra, a Terra da Vera Cruz.

Pero Vaz de Caminha a dom Manuel, carta de 1º de maio de 1500, fólio 1v

O país começa, portanto, com nome de igreja. No fim da carta, Caminha já fala em ilha: ninguém a bordo imaginava o tamanho do achado. Em poucos anos, a Ilha de Vera Cruz virou Terra de Santa Cruz. E aí entrou em cena uma árvore.

Uma tinta cor de brasa

O pau-brasil tem o miolo vermelho e dá uma tinta da cor da brasa, muito procurada na Europa para tingir os tecidos de quem podia pagar. A palavra já existia antes de 1500: a Europa chamava de “brasil” a tinta de uma madeira parecida, que vinha da Ásia. A costa nova oferecia a mesma coisa, em quantidade.

Quem cortava eram os indígenas. O Atlas Miller, de cerca de 1519, mostra homens derrubando árvores e carregando toras até a praia, com papagaios nos galhos. Em troca, recebiam machados, facas e tecidos: era o escambo. Sem esse trabalho, não haveria negócio. Dom Manuel fez da madeira um monopólio da Coroa e, em 1502, arrendou o comércio a mercadores de Lisboa liderados por Fernão de Loronha, que ganhou até uma ilha no meio do Atlântico. Ela tem o nome dele até hoje: Fernando de Noronha. Navios franceses da Normandia e da Bretanha também carregavam pau-brasil, trocado com os tupinambás, aliados deles.

O cronista que culpou o demônio

Com tanta tora indo e vindo, marinheiros e mercadores pararam de dizer Santa Cruz. O historiador João de Barros, em 1552, não gostou nada disso.

Porém, como o demônio, pelo sinal da cruz, perdeu o domínio que tinha sobre nós, … tanto que daquela terra começou de vir o pau vermelho chamado Brasil, trabalhou que este nome ficasse na boca do povo, e que se perdesse o de Santa Cruz.

João de Barros, Ásia, Década I, livro V, capítulo 2 (1552)

Para um homem devoto, trocar o nome da Cruz pelo de uma mercadoria era uma derrota. Para todo o resto, era só o jeito de chamar o lugar de onde vinha a tinta. O povo ganhou a parada.

E a ilha lendária?

Alguns mapas medievais desenhavam uma ilha imaginária chamada Brasil, ou Hy-Brasil, no Atlântico, a oeste da Irlanda. Há quem ligue o nome do país a ela. Quem viveu o século XVI não fazia essa ligação: como Barros, todos falavam da madeira. Para a maioria dos historiadores, a ilha é uma coincidência de grafia.

O que sobrou da árvore

A árvore que deu nome ao país hoje está ameaçada de extinção, depois de séculos de corte. Uma lei de 1978 a declarou árvore nacional. A madeira ainda é a referência para arcos de violino, e os fabricantes do mundo inteiro a chamam de pernambuco, nome da antiga capitania. Antes de ser colônia, reino ou república, o Brasil foi uma carga, e o nome pegou. A linha que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha está em O que foi o Tratado de Tordesilhas?.

Fontes

  • Pero Vaz de Caminha, carta a dom Manuel, 1º de maio de 1500, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa
  • João de Barros, Ásia, Década I, livro V, capítulo 2 (1552)
  • Atlas Miller (c. 1519), Biblioteca Nacional da França
  • Lei nº 6.607, de 7 de dezembro de 1978 (declara o pau-brasil árvore nacional)
  • Boris Fausto, História do Brasil (1994)