História do Brasil · Mitos

“Em se plantando, tudo dá” está na carta de Caminha?

A resposta curta

Não. A frase não aparece na carta. Caminha escreveu que a terra, “querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem” (fólio 13v), logo depois de admitir que ninguém tinha visto ouro nem prata. O ditado “em se plantando, tudo dá” veio depois, de autor desconhecido, e grudou no nome dele.

Revisado em

O que está escrito

Abra a carta que Pero Vaz de Caminha terminou em Porto Seguro em 1º de maio de 1500 e procure o ditado. Você não vai achar. Perto do fim, no fólio 13v, o escrivão faz um balanço da terra para o rei dom Manuel. Diz que ela é tão “graciosa” que:

… querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.

Pero Vaz de Caminha a dom Manuel, carta de 1º de maio de 1500, fólio 13v

Leia devagar e repare em três coisas. Primeiro, a condição: “querendo-a aproveitar”, ou seja, se alguém se dispuser a trabalhar nela. Segundo, o motivo: as muitas águas da terra, não algum milagre do solo. Terceiro, o que não está ali: o verbo plantar não aparece, e nada nasce sozinho. É a frase de quem avalia um terreno para o patrão, não um slogan.

Antes da terra, o ouro

O trecho fica mais claro quando você lê o que vem logo antes, no mesmo fólio. Ali está a notícia que o rei mais queria saber:

Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem nenhuma coisa de metal, nem de ferro, nem lho vimos.

Pero Vaz de Caminha a dom Manuel, carta de 1º de maio de 1500, fólio 13v

Portugal queria saber duas coisas daquela terra: se havia ouro e se havia almas para salvar. Para a primeira, a resposta do escrivão é seca: até ali, nada. Sem ouro para mostrar, ele oferece ao rei o que tem. Terra boa, água de sobra e, como diz no fim do trecho, gente para converter: o melhor fruto, escreve, “será salvar esta gente”.

Ouro havia, mas longe daquela praia: só seria achado quase dois séculos depois, na década de 1690, nos ribeirões de Minas Gerais.

De onde veio o ditado

Se não é de Caminha, é de quem? Ninguém sabe. O ditado veio depois, de autor desconhecido, e pegou. Um detalhe ajuda a entender o tamanho da confusão: a carta passou séculos guardada na Torre do Tombo, em Lisboa, foi redescoberta em 1773 e só saiu impressa em 1817, no Rio. Durante mais de três séculos, quase ninguém leu o texto de verdade. A frase curta resume o espírito do trecho com exagero, tem jeito de documento antigo, e acabou colada ao nome do escrivão.

Por que o engano importa

“Em se plantando, tudo dá” virou um jeito de falar da fartura do Brasil, às vezes com orgulho, às vezes com ironia. A frase verdadeira é mais modesta e mais interessante: um funcionário sem ouro para mostrar, avaliando com cuidado uma terra que mal conhecia.

E nem sobre plantar ele acertou tudo. Em outro trecho, escreveu que os moradores “não lavram nem criam”. Os tupiniquins tinham roças de mandioca, milho e batata-doce, e quem plantava naquela terra eram eles. Quantos eram está em Quantos indígenas viviam no Brasil em 1500?. O resto da carta, da primeira troca na praia ao pedido de família no fim, está em O que foi a carta de Pero Vaz de Caminha?

Fontes

  • Pero Vaz de Caminha, carta a dom Manuel, 1º de maio de 1500, fólios 11v e 13v, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa (Gavetas, gav. 8, mç. 2, n.º 8)
  • Manuel Aires de Casal, Corografia Brazilica (Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1817)
  • Jaime Cortesão, A carta de Pero Vaz de Caminha (1943)