História do Brasil · Mitos

Canudos era monarquista?

A resposta curta

Não no sentido político. Antônio Conselheiro rejeitava a República por motivos religiosos, como o casamento civil e a separação entre Igreja e Estado, e dizia que não a reconhecia. Mas nenhuma prova de dinheiro ou arma monarquista jamais apareceu, e em 1902 o próprio Euclides da Cunha, que tinha chamado Canudos de complô, reconheceu que não houve conspiração.

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O que o Conselheiro disse

A melhor pista sobre o que ele pensava vem de uma conversa de maio de 1895. O arcebispo da Bahia mandou a Belo Monte o frei capuchinho João Evangelista de Monte Marciano. O frade encontrou perto de mil homens armados na praça e pediu que o povo se dispersasse. O Conselheiro o recebeu com calma e respondeu, segundo o relatório que o próprio frade escreveu:

É para minha guarda que tenho comigo estes homens armados, porque Vossa Reverendíssima há de saber que a polícia atacou-me e quis matar-me no lugar chamado Maceté, onde houve mortes de um e outro lado. No tempo da monarquia deixei-me prender, porque reconhecia o governo, hoje não, porque não reconheço a República.

Antônio Conselheiro a frei João Evangelista de Monte Marciano, maio de 1895 (relatório do frade, citado em Os Sertões)

Repare no que falta. Ele não pede a volta do imperador nem fala em derrubar governo nenhum. Diz que não reconhece a República, e não o Brasil. E explica os homens armados pelo ataque da polícia de 1893, quando trinta soldados foram atrás dele e voltaram derrotados.

Uma briga de fé

A monarquia caiu em 15 de novembro de 1889. A Constituição de 1891 separou a Igreja do Estado: só o casamento civil passou a valer, e os cemitérios saíram das mãos da Igreja. Para um beato que tinha passado vinte anos reconstruindo capelas e muros de cemitério, isso era sacrilégio. Versos achados no arraial chamavam a lei nova de “lei do cão”.

É o que os historiadores chamam de monarquismo religioso, e não político. O Conselheiro sentia falta de uma ordem em que o governo e a Igreja andavam juntos. Não tinha partido, programa nem patrocinador.

Por que o Rio viu um complô

O medo da capital tinha contexto. A República era jovem e acabava de enfrentar duas revoltas, a da Armada, no Rio, e a Federalista, no Sul, de 1893 a 1895. Em março de 1897, a terceira expedição contra Canudos se desfez e o comandante, o coronel Moreira César, herói dos florianistas, morreu. No Rio, multidões quebraram redações de jornais monarquistas, e o coronel Gentil de Castro, editor monarquista, foi assassinado numa estação de trem.

Até Euclides da Cunha, republicano de primeira hora, acreditou nisso. Em 14 de março de 1897, sem nunca ter pisado no sertão, escreveu:

Como na Vendéia o fanatismo religioso que domina as suas almas ingênuas e simples é habilmente aproveitado pelos propagandistas do império.

Euclides da Cunha, “A nossa Vendéia”, O Estado de S. Paulo, 14 de março de 1897

A Vendeia foi a revolta camponesa e católica contra a Revolução Francesa. A comparação dizia tudo: gente simples, manobrada por monarquistas.

O que as provas mostraram

O exército tomou o arraial em outubro de 1897, e nenhuma prova de dinheiro ou arma monarquista apareceu. Parte dos melhores fuzis dos sertanejos tinha saído do próprio exército, recolhida na fuga da tropa de Moreira César. Euclides foi a Canudos como repórter, mudou de ideia e, em Os Sertões (1902), reconheceu que não houve conspiração monárquica. A causa estava no sertão: seca, terra concentrada, fé, e fazendeiros que perdiam braços e votos. Os detalhes estão em Por que começou a Guerra de Canudos?, e o fim do Império que o Conselheiro lamentava, em Por que a monarquia caiu no Brasil?.

Fontes

  • Frei João Evangelista de Monte Marciano, relatório sobre a missão a Canudos (1895), citado em Os Sertões
  • Euclides da Cunha, “A nossa Vendéia”, O Estado de S. Paulo, 14 de março de 1897
  • Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, 24 de fevereiro de 1891
  • Euclides da Cunha, Os Sertões (1902)
  • Museu da República, cronologia de Canudos (2017)