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O que foi a Guerra de Canudos?

A resposta curta

Foi a guerra que a jovem República travou, de novembro de 1896 a outubro de 1897, contra Belo Monte, o arraial de pobres que Antônio Conselheiro fundou em 1893 no sertão da Bahia. Três expedições do exército foram derrotadas. A quarta, com cerca de 10 mil soldados e 21 canhões, arrasou o arraial em 5 de outubro de 1897.

Revisado em

Belo Monte, o arraial que o país chamou de Canudos

Em junho de 1893, Antônio Conselheiro, um beato que andava havia mais de vinte anos pelo sertão, chegou a uma fazenda quase abandonada numa curva do rio Vaza-Barris, no nordeste da Bahia. O lugar se chamava Canudos: uns cinquenta casebres e uma capela. Ele o rebatizou de Belo Monte, e em poucos meses chegaram famílias inteiras, carregando oratórios, baús e santos.

Em quatro anos, o arraial de barro chegou a 5.200 casas e virou uma das maiores povoações da Bahia. Moravam ali vaqueiros, meeiros, beatas, libertos de 1888 e indígenas kiriris, kaimbés e tuxás. Rezava-se ao nascer do sol e ao cair da tarde, plantava-se milho e feijão na beira do rio, e havia até escola. O governo e os jornais ficaram com o nome da fazenda. Quem morava lá dizia Belo Monte.

Por que a República decidiu atacar é assunto de Por que começou a Guerra de Canudos?. Aqui vai a guerra inteira.

Quatro expedições em menos de um ano

Cada derrota trouxe um exército maior:

  1. Novembro de 1896, Uauá. Pouco mais de cem soldados, sob o tenente Pires Ferreira, enfrentam uma procissão armada e recuam para Juazeiro.
  2. Janeiro de 1897, serra do Cambaio. Quase 600 homens do major Febrônio de Brito, com dois canhões Krupp, são barrados entre as pedras e voltam para Monte Santo.
  3. Março de 1897. O coronel Moreira César ataca com quase 1.300 homens e quatro canhões. A tropa se perde no labirinto de vielas, e ele é ferido e morre na manhã seguinte. A retirada vira fuga.
  4. De junho a outubro de 1897. O general Artur Oscar comanda a quarta expedição. Com reforços de todo o país, ela chega a cerca de 10 mil soldados e 21 canhões.

O cerco e a queda

A quarta expedição chegou em 27 de junho ao morro da Favela, de frente para o arraial, e ficou semanas presa ali, com fome e sob fogo. O cerco só se fechou depois que o ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, foi em pessoa à Bahia, em agosto, organizar comboios de comida e reforços. A artilharia derrubou o sino da igreja velha e as torres da igreja nova. O Conselheiro morreu dentro do arraial em 22 de setembro, e o povo continuou lutando.

O assalto final começou em 1º de outubro. No dia 2, centenas de mulheres, crianças e velhos se renderam com promessa de vida, e a promessa não foi cumprida. Ao entardecer de 5 de outubro de 1897, caíram os últimos defensores, numa trincheira junto à igreja nova. Quase no fim de Os Sertões, Euclides da Cunha, que cobriu a guerra como repórter, escreveu:

Fechemos este livro. Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo.

Euclides da Cunha, Os Sertões (1902), parte III, “A Luta”

Quem venceu

O exército venceu: tomou o arraial e, no dia seguinte à queda, terminou de derrubar as casas e contou 5.200. A vitória custou quatro expedições e dois coronéis mortos, Moreira César e Tamarindo. Do lado de Belo Monte, as estimativas vão de 10 mil a 20 mil mortos (os números e o que eles escondem). Cinco anos depois, o repórter que tinha chegado chamando Canudos de “nossa Vendéia” publicou um livro que chamava a campanha de crime.

O que ficou

Os sobreviventes ergueram um povoado sobre as ruínas. No fim dos anos 1960, o açude de Cocorobó encheu e cobriu a velha Canudos, e nas secas as ruínas reaparecem. Desde 1986, o Parque Estadual de Canudos guarda o campo de batalha. A guerra virou livro, filme e romance: A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa (1981), conta essa mesma história, misturando gente real e personagens inventados.

Fontes

  • Euclides da Cunha, Os Sertões (Rio de Janeiro: Laemmert, 1902)
  • Flávio de Barros, fotografias da quarta expedição (1897), Museu da República, Rio de Janeiro
  • Museu da República, cronologia de Canudos (2017)
  • Walnice Nogueira Galvão, No calor da hora: a Guerra de Canudos nos jornais (1974)
  • Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo (1981)