História do Brasil · Fatos

Por que começou a Guerra de Canudos?

A resposta curta

A faísca foi local. Antônio Conselheiro pagou em Juazeiro a madeira da igreja nova, ela não chegou, e o juiz, diante do boato de que os fiéis iriam buscá-la à força, pediu tropas. O choque foi em Uauá, em 21 de novembro de 1896. Por trás, pesavam a República laica, fazendeiros sem braços nem votos e uma Igreja alarmada.

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Uma carga de madeira

Tudo começou com uma encomenda. Para terminar a igreja nova de Belo Monte, Antônio Conselheiro comprou madeira em Juazeiro, cidade baiana na beira do rio São Francisco, e pagou adiantado. A madeira nunca chegou. Em Juazeiro, espalhou-se o boato de que os conselheiristas viriam buscá-la à força. Em outubro de 1896, o juiz da cidade pediu tropas ao governador da Bahia. Euclides da Cunha conta o episódio em Os Sertões num trecho de título seco: “Causas próximas da luta”.

O que já estava no ar

Encomenda atrasada não vira guerra sozinha. Em 1896, o arraial já incomodava muita gente, cada uma por um motivo:

  • A República laica. A Constituição de 1891 separou a Igreja do Estado: só o casamento civil passou a valer, e os cemitérios deixaram de ser da Igreja. Para o Conselheiro, era sacrilégio, e ele pregava contra o governo novo. Em 1893, conta Euclides, mandou queimar numa fogueira os editais de impostos afixados na feira de Bom Conselho, e trinta policiais mandados atrás dele foram derrotados em Masseté.
  • Os fazendeiros. Milhares de vaqueiros e meeiros largaram as fazendas por Belo Monte. Os coronéis perdiam braços para a roça e os eleitores do voto de cabresto, aquele em que o patrão dizia em quem votar.
  • A Igreja. O arcebispo da Bahia tinha proibido o Conselheiro de pregar nos templos em 1882 e, em 1887, pedido ao governo que o detivesse. Em maio de 1895, mandou ao arraial uma missão de frades capuchinhos. Frei João Evangelista encontrou perto de mil homens armados na praça, e o relatório dele espalhou o alarme.

Uauá, 21 de novembro de 1896

Partiram 104 praças e três oficiais, sob o comando do tenente Pires Ferreira. Pararam para dormir em Uauá, um povoado no caminho. Na madrugada de 21 de novembro, acordaram com uma procissão: cruz de madeira, bandeira do Divino, rezas. Eram os conselheiristas, armados de facões e espingardas velhas.

A luta durou quatro horas. Os soldados, com fuzis modernos, atiravam das janelas. Morreram dez da tropa e, segundo a parte oficial, cento e cinquenta sertanejos. Mesmo assim, o tenente recuou para Juazeiro, com a tropa em trapos e o médico enlouquecido. O telégrafo espalhou a notícia como derrota do governo.

Fé, terra ou complô?

Em 1897, a imprensa e o próprio Euclides explicavam Canudos pelo “fanatismo” religioso manipulado por monarquistas. Essa tese está examinada em Canudos era monarquista?. Historiadores como Walnice Nogueira Galvão apontam raízes mais fundas, no próprio sertão: a seca, a terra concentrada em poucas mãos, os libertos de 1888 sem nada e uma Igreja distante dos pobres.

Seja qual for o peso de cada causa, depois de Uauá recuar ficou caro para a República. Uma briga local virou questão de honra do governo, e cada derrota pediu uma tropa maior. A guerra inteira, do primeiro tiro à queda do arraial, está em O que foi a Guerra de Canudos?.

Fontes

  • Euclides da Cunha, Os Sertões (1902), parte III, “A Luta”, trecho “Causas próximas da luta”
  • Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, 24 de fevereiro de 1891
  • Frei João Evangelista de Monte Marciano, relatório sobre a missão a Canudos (1895)
  • Walnice Nogueira Galvão, No calor da hora: a Guerra de Canudos nos jornais (1974)
  • Museu da República, cronologia de Canudos (2017)