A resposta curta
Do lado de Canudos, morreram de 10 mil a 20 mil pessoas. São estimativas: ninguém fez a conta. O arraial, que o Conselheiro chamava de Belo Monte, tinha 5.200 casas e de 10 mil a 25 mil moradores. A promessa de vida feita a quem se rendeu em 2 de outubro de 1897 não foi cumprida.
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Um arraial sem censo
Para contar os mortos, seria preciso saber quantos viviam lá, e ninguém fez censo em Belo Monte. O único número firme é o das casas: no fim da guerra, o exército contou 5.200. A partir delas, as estimativas de moradores vão de 10 mil a 25 mil. O historiador José Calasans, que passou décadas ouvindo sobreviventes, considera exagerado o número mais alto. Mesmo pela conta baixa, era uma das maiores povoações da Bahia.
Os mortos de Belo Monte
Do lado do arraial, as estimativas vão de 10 mil a 20 mil mortos, entre combate, fome e sede, em quase um ano de guerra. Circula muito o número de 25 mil mortos. Repare que ele coincide com o teto das estimativas de moradores, justamente o que Calasans acha exagerado. Tomar a população inteira como morta apagaria os que fugiram, os que se renderam e os que voltaram depois.
A rendição e os prisioneiros
O assalto final começou em 1º de outubro de 1897. No dia seguinte, Antônio Beatinho saiu com uma bandeira branca e negociou com o general a vida dos que se rendessem. Voltou com centenas de mulheres, crianças e velhos, famintos e feridos. Flávio de Barros, o fotógrafo contratado pelo exército, os fotografou sentados no chão. A foto conhecida como “400 jagunços prisioneiros”, com a palavra que a imprensa da época usava para todo morador de Canudos, saiu na primeira edição de Os Sertões com outra legenda: “As prisioneiras”.
A promessa não foi cumprida. Os homens que se renderam sumiram na manhã seguinte, Beatinho entre eles, e muitos prisioneiros foram degolados, prática que, segundo Euclides da Cunha, virou rotina aceita pelos chefes. Crianças órfãs foram levadas por soldados e por famílias de fora, como prêmio de guerra. Em Os Sertões, Euclides chamou a campanha inteira de crime.
Os últimos quatro e os que escaparam
Ao entardecer de 5 de outubro, caíram os últimos defensores, numa trincheira junto à igreja nova. Segundo Euclides, eram quatro: “um velho, dois homens feitos e uma criança”. Mas houve sobreviventes. O comerciante Antônio Vilanova saiu com os seus por trilhas escondidas em setembro, antes de o cerco se fechar, e outros voltaram para erguer um povoado sobre as ruínas. Foram eles que, décadas depois, contaram a Calasans como era a vida do lado de dentro.
E o exército?
Um total confiável de soldados mortos é mais difícil de afirmar. O que os registros dão, com data, é isto:
- Uauá, novembro de 1896. Morreram dez soldados e, segundo a parte oficial, cento e cinquenta sertanejos.
- Março de 1897. O coronel Moreira César e o coronel Tamarindo, que assumiu o comando depois dele, morreram no mesmo desastre.
- Morro da Favela, a partir de junho de 1897. A quarta expedição passou semanas sob fogo, com fome e centenas de feridos.
O que aqueles soldados levaram de volta para o Rio está em De onde vem a palavra favela?. E o que aconteceu com o próprio Conselheiro, que morreu antes da queda, está em Como Antônio Conselheiro morreu?.
Fontes
- Euclides da Cunha, Os Sertões (1902), parte III, “A Luta”
- Flávio de Barros, “400 jagunços prisioneiros” e demais fotografias da quarta expedição (1897), Museu da República, Rio de Janeiro
- José Calasans, O ciclo folclórico do Bom Jesus Conselheiro (1950)
- Museu da República, cronologia de Canudos (2017)