Roma Antiga · Mitos

Cleópatra era bonita?

A resposta curta

Não do jeito que a lenda conta. Plutarco, mais de cem anos depois da morte dela, diz que sua beleza não era incomparável nem fazia ninguém parar na rua; encantavam a conversa, a presença e a voz doce. As moedas mostram nariz adunco e queixo forte. A grande beldade veio depois, com outros autores e com Hollywood.

Revisado em

O que Plutarco escreveu de verdade

O veredito antigo mais famoso sobre a aparência de Cleópatra não é o que a gente espera. Na Vida de Antônio, Plutarco diz que a beleza dela, em si, não era incomparável, nem do tipo que impressiona à primeira vista. Irresistível era a convivência: a conversa, o poder de persuasão e um jeito de ser que se espalhava por tudo o que ela fazia. A voz, acrescenta, era doce de ouvir (Vida de Antônio 27).

Plutarco não a chama de feia. Dois capítulos antes, conta que ela confiava no efeito da própria beleza, que já tinha funcionado com César, e que foi encontrar Antônio na idade em que a mulher está no auge da beleza e da inteligência (Vida de Antônio 25). O que ele quer dizer é que o rosto era o de menos. A mesma passagem elogia as muitas línguas que ela falava, parte da sua origem grega macedônia.

O que as moedas mostram

As moedas são os únicos retratos que dá para ligar a ela com certeza, porque trazem o seu nome. Mostram um nariz longo e adunco, um queixo saliente e o cabelo puxado num coque sob a faixa real. Num denário romano de prata cunhado para Antônio, o busto dela vem com uma legenda em latim:

CLEOPATRAE REGINAE REGVM FILIORVM REGVM

Denário de prata de Antônio e Cleópatra, 34–32 a.C.

Quer dizer: “De Cleópatra, rainha dos reis e de seus filhos, que são reis”. Do outro lado está a cabeça de Antônio, e os dois perfis são muito parecidos, com o mesmo nariz e o mesmo queixo projetado. Os estudiosos veem nisso uma convenção, o casal real retratado em harmonia, não uma fotografia. O rosto das moedas também lembra o do pai dela. Entre as cabeças de mármore identificadas pelas moedas, a do Altes Museum, em Berlim, conserva o nariz inteiro, com o mesmo diadema e o mesmo coque; a dos Museus Vaticanos perdeu o nariz.

De onde vem a lenda da grande beldade

Cássio Dio, que escreveu uns dois séculos e meio depois da morte dela, é a fonte da Cleópatra deslumbrante. Ele a chama de mulher de beleza extraordinária, no auge da juventude, com uma voz encantadora, e diz que ela apostou o trono na própria aparência ao ir ao encontro de César (História Romana 42.34).

A propaganda romana já tinha feito dela uma sedutora. Para o lado de Otaviano, era a rainha estrangeira que enfeitiçou um general romano. Horácio, ao comemorar a morte dela, a chama de fatale monstrum, um prodígio fatal (Odes 1.37). Shakespeare transformou em poesia a cena de Tarso descrita por Plutarco: a rainha subindo o rio Cidno sob velas púrpuras, vestida de Vênus. Blaise Pascal brincou nos Pensamentos (1670) que, se o nariz de Cleópatra fosse mais curto, toda a face da Terra teria mudado. O cinema fez o resto, com Elizabeth Taylor em 1963 como imagem definitiva.

Coragem, não um rosto

Em uma coisa as fontes concordam: a ousadia. Ela chegou a César escondida num saco de roupa de cama, um truque que, segundo Plutarco, foi o que primeiro o conquistou (Vida de César 49). Fez Antônio ir jantar com ela, em Tarso, e não o contrário. Eram encenações políticas de uma rainha cujo reino dependia dos homens fortes de Roma, e deram certo. Se o rosto dela era bonito pelos nossos padrões, ninguém pode dizer.

Fontes

  • Plutarco, Vida de Antônio 25–27 e Vida de César 49
  • Cássio Dio, História Romana 42.34
  • Horácio, Odes 1.37
  • Denário de prata de Antônio e Cleópatra (34–32 a.C.); a Cleópatra de Berlim, Altes Museum, Berlim
  • William Shakespeare, Antônio e Cleópatra, ato 2, cena 2; Blaise Pascal, Pensamentos (1670)