Roma Antiga · História

Cleópatra era egípcia ou grega?

A resposta curta

Grega, de família e de língua. Cleópatra VII pertencia aos Ptolomeus, dinastia grega da Macedônia fundada por um general de Alexandre, o Grande, que governou o Egito a partir de Alexandria por quase três séculos. Plutarco diz que ela foi a primeira da família a aprender egípcio. Não se sabe quem foi sua mãe.

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Uma família macedônia no trono do Egito

Quando Alexandre, o Grande, morreu, em 323 a.C., seus generais dividiram o império. Um deles, um macedônio chamado Ptolomeu, ficou com o Egito e em 305 a.C. se proclamou rei. Todos os reis depois dele também se chamaram Ptolomeu, e as rainhas eram quase sempre Cleópatras, Berenices e Arsínoes. A Cleópatra famosa foi a sétima rainha com esse nome, nascida por volta de 69 a.C. Até o nome é grego: Kleopatra, “glória do pai”.

A família reinava em Alexandria, a cidade grega que Alexandre fundou no litoral. A corte falava grego, os funcionários escreviam em grego e as moedas traziam letras gregas. Para manter o sangue real, os Ptolomeus se casavam dentro da família: Ptolomeu II se casou com a própria irmã, Arsínoe II. A própria Cleópatra dividiu o trono com dois irmãos mais novos, um depois do outro, cada um seu marido só no papel.

A primeira a falar a língua do povo

Plutarco, que escreveu mais de cem anos depois da morte dela, conta o detalhe mais curioso. Segundo ele, Cleópatra mudava de língua quando queria e quase nunca precisava de intérprete. Ele lista povos a quem ela respondia no próprio idioma: etíopes, trogloditas da costa do mar Vermelho, hebreus, árabes, sírios, medos e partos. E então vem a surpresa: os reis do Egito antes dela nem tinham tentado aprender a língua do país, e alguns tinham até abandonado o dialeto macedônio (Vida de Antônio 27).

Pense nisso. Depois de quase trezentos anos às margens do Nilo, a dinastia ainda vivia num mundo grego dentro de Alexandria, enquanto a maior parte do povo ao longo do rio falava egípcio. Cleópatra conversava com camponeses e sacerdotes sem tradutor.

Rainha grega, faraó egípcia

Ela fazia os dois papéis de propósito. Nas moedas aparece como rainha grega, com a faixa real na cabeça e o cabelo preso num coque. Nas paredes externas do templo de Hator em Dendera, no Alto Egito, ela e o filho Cesarião estão esculpidos como faraós, no velho estilo egípcio, fazendo oferendas aos deuses. Em Alexandria, diz Plutarco, ela aparecia em público com o manto sagrado de Ísis e era saudada como a Nova Ísis. Na mesma cerimônia, o filho pequeno, Ptolomeu, usava botas, capa curta e chapéu de abas largas com diadema: a roupa dos reis macedônios (Vida de Antônio 54).

Até a papelada era em grego. Um papiro de fevereiro de 33 a.C., reaproveitado depois para embrulhar uma múmia, concede isenção de impostos a um romano e termina com uma palavra grega acrescentada, ginesthoi, “que assim se faça”. Alguns estudiosos acham que foi a própria rainha quem a escreveu.

E a mãe dela?

Aqui os documentos se calam. O pai era Ptolomeu XII, apelidado de Auleta, “o flautista”. Nenhum autor antigo diz com clareza quem era a mãe; a maioria dos historiadores pensa em Cleópatra V, da mesma família. A mãe do pai também é desconhecida. Para a maioria dos estudiosos, Cleópatra era essencialmente grega macedônia. Um biógrafo, Duane Roller, sugere que a mãe podia vir de uma família de sacerdotes de Mênfis, o que a faria um quarto egípcia. É uma hipótese, não um registro. Certo mesmo é como ela se via: uma rainha grega do Egito, a última dos Ptolomeus. A beleza dela já é outra conversa.

Fontes

  • Plutarco, Vida de Antônio 27 e 54
  • Plutarco, Vida de César 48–49
  • Papiro Bingen 45 (33 a.C.); relevos de Cleópatra e Cesarião, templo de Hator, Dendera
  • Duane W. Roller, Cleopatra: A Biography (Oxford University Press, 2010)