A resposta curta
Em parte, e sem querer. Em 48 a.C., cercado em Alexandria, César pôs fogo nos navios do porto, e o incêndio chegou às docas. Plutarco diz que destruiu a grande biblioteca; Sêneca fala em 40.000 rolos, talvez em depósitos do porto. Mas os estudiosos seguiram trabalhando em Alexandria. Nenhum incêndio sozinho acabou com a Biblioteca: ela definhou.
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Uma guerra de rua em 48 a.C.
César chegou a Alexandria em 48 a.C. atrás de Pompeu e ficou para resolver a briga pelo trono entre o menino rei Ptolomeu XIII e a irmã, Cleópatra. Logo estava cercado no bairro do palácio pelo exército egípcio e pelas multidões da cidade, com só alguns milhares de homens. Quando o inimigo tentou isolar a frota dele, César pôs fogo nos navios do porto. O relato que o próprio César fez da guerra fala dos navios queimados e de mais nada. Os autores posteriores falam bem mais.
O que dizem os autores antigos
Eles discordam, e quanto mais longe do fato, maior fica a perda:
- Sêneca, no século I d.C., cita o historiador Tito Lívio: 40.000 livros queimados em Alexandria.
- Plutarco, por volta de 100 d.C., diz que o fogo passou das docas e destruiu a grande biblioteca.
- Aulo Gélio, no século II, fala em quase 700.000 volumes queimados, não por ordem de alguém, mas por acidente, pelos soldados auxiliares.
- Cássio Dio, no início do século III, cita as docas e os depósitos de trigo e de livros. Muitos estudiosos entendem que eram armazéns perto do porto, não a Biblioteca.
- Amiano Marcelino, no fim do século IV, repete os 700.000, embora ponha as bibliotecas no Serapeu, um templo em outra parte da cidade.
O número de Lívio é o mais antigo e o mais modesto. A Biblioteca fazia parte do Museu, o centro de pesquisa real de Alexandria, dentro do bairro do palácio, e muitos historiadores acham que o que queimou em 48 a.C. foi um estoque de rolos guardado nas docas, e não o acervo principal.
A Biblioteca depois de César
As provas de que ela sobreviveu são boas. Por volta de 20 a.C., o geógrafo Estrabão descreveu o Museu funcionando: um passeio, um salão com assentos, um refeitório comum dos estudiosos e um sacerdote encarregado, antes nomeado pelos reis e agora pelo governante de Roma. Em 32 a.C., um amigo de Otaviano acusou Antônio de dar a Cleópatra os 200.000 rolos da biblioteca de Pérgamo; Plutarco registra a acusação e diz que a maioria a achou falsa. Um século depois do incêndio, o imperador Cláudio acrescentou ao Museu uma ala nova com o nome dele, onde suas histórias escritas em grego eram lidas em voz alta, do começo ao fim, todos os anos.
Então quem a destruiu?
Não houve um vilão só. O declínio começou antes de César: em 145 a.C., o rei Ptolomeu VIII expulsou os estudiosos de Alexandria, e o bibliotecário-chefe, Aristarco, fugiu para Chipre. Nos anos 270, o imperador Aureliano, ao retomar a cidade das forças da rainha Zenóbia, de Palmira, arrasou o bairro do palácio onde ficava a Biblioteca. Em 391, cristãos demoliram o Serapeu, o grande templo que guardava um segundo acervo. A história de que os conquistadores árabes de 642 queimaram os livros por ordem do califa só aparece uns cinco séculos depois, e os historiadores a rejeitam.
O incêndio de César foi uma perda entre muitas: um acidente numa guerra de rua, e o mais famoso. A moderna Bibliotheca Alexandrina, inaugurada à beira-mar em 2002, é uma homenagem ao que se perdeu ao longo de todos esses séculos.
Fontes
- César, A Guerra Civil 3.111–112
- Plutarco, Vida de César 49 e Vida de Antônio 58–59
- Sêneca, Sobre a tranquilidade da alma 9.5; Aulo Gélio, Noites Áticas 7.17; Cássio Dio, História Romana 42.38
- Estrabão, Geografia 17.1.8; Suetônio, Vida de Cláudio 42; Amiano Marcelino, História 22.16
- Roy MacLeod (org.), The Library of Alexandria: Centre of Learning in the Ancient World (2000)