Roma Antiga · Mitos

Cleópatra foi levada a César enrolada num tapete?

A resposta curta

Não. O tapete é invenção moderna. Plutarco, o único escritor antigo que descreve o truque, conta que em 48 a.C. Cleópatra se deitou esticada dentro de um saco de roupa de cama, que o amigo Apolodoro amarrou com uma corda e carregou para dentro do palácio de Alexandria, até César. O tapete veio depois, do teatro e do cinema.

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Uma rainha barrada na própria capital

No outono de 48 a.C. o Egito tinha dois governantes que não se suportavam. Cleópatra, de vinte e um anos, dividia o trono com o irmão, Ptolomeu XIII, um menino de uns treze anos cujos tutores, liderados pelo eunuco Potino, a tinham expulsado. Ela estava acampada com um exército perto de Pelúsio, na borda leste do Egito. Então Júlio César chegou a Alexandria atrás do rival derrotado, Pompeu, e recebeu de presente a cabeça dele: os homens de Ptolomeu o tinham matado na praia. César ficou e, como cônsul de Roma, mandou rei e rainha levarem a briga até ele.

O problema era chegar lá. As tropas do irmão dominavam a cidade em volta do palácio onde César estava hospedado, e ela não tinha como passar por elas a pé.

O que Plutarco diz

Plutarco, escrevendo cerca de um século e meio depois, conta tudo em poucas linhas. Cleópatra levou um só amigo, Apolodoro, o Siciliano, e embarcou num barquinho. Eles atracaram junto ao palácio quando escurecia. Como não havia outro jeito de entrar sem ser vista, ela se deitou esticada dentro de um saco de roupa de cama, e Apolodoro o amarrou com uma corda e o carregou para dentro, até César (César 49).

A palavra grega é strōmatodesmon, de strōma, roupa de cama, e desmos, amarra: uma trouxa ou saco para levar cobertores e lençóis em viagem. Nada nela sugere um tapete. Plutarco acrescenta que foi esse truque que primeiro conquistou César, porque mostrou uma mulher ousada e atrevida, e que depois de conviver com ela ele a reconciliou com o irmão, para reinarem juntos. Apolodoro não aparece em nenhum outro lugar da história antiga.

As outras versões

Os outros relatos nem têm saco. O próprio César, na Guerra Civil, não diz nada sobre como ela chegou, nem sobre o caso dos dois. Cássio Dio, no século III, conta que ela primeiro mandou pedidos por intermediários, depois pediu para vir em pessoa e entrou na cidade à noite, sem o irmão saber, vestida para parecer ao mesmo tempo majestosa e digna de pena. Na manhã seguinte, diz Dio, o jovem Ptolomeu a encontrou no palácio, saiu correndo para a multidão gritando que tinha sido traído e arrancou o diadema da cabeça (História Romana 42.34–35).

Os historiadores não têm como testar a história de Plutarco. O que todas as fontes confirmam é o resultado. Em um dia Cleópatra tinha César do seu lado, e logo os dois estavam cercados juntos no bairro do palácio, numa guerra de rua que pôs fogo no porto (e talvez na Biblioteca).

De onde veio o tapete

Do teatro. Na peça César e Cleópatra, de George Bernard Shaw, escrita em 1898, Apolodoro aparece com uma carga de tapetes finos, e a rainha é levada a César enrolada num deles. O cinema adorou. O filme de 1945 baseado na peça, com Vivien Leigh e Claude Rains, manteve a cena, e em Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, de 1963, Elizabeth Taylor sai de dentro de um tapete aos pés do César de Rex Harrison.

Um tapete rende uma imagem melhor do que uma trouxa de lençóis, e ficou em documentários, desenhos e livros escolares desde então. O truque de verdade não precisa de enfeite: uma rainha de vinte e um anos, barrada na própria capital, dobrada numa trouxa de viagem e carregada entre os inimigos até o homem mais poderoso do mundo. Para Plutarco, foi o começo de tudo o que veio depois, inclusive o filho que ela teve com César.

Fontes

  • Plutarco, Vida de César 48–49
  • Cássio Dio, História Romana 42.34–35
  • César, A Guerra Civil 3.103–112
  • George Bernard Shaw, César e Cleópatra (1898), ato 3
  • Cleópatra, direção de Joseph L. Mankiewicz (1963)