A resposta curta
Ela se matou, em Alexandria, em agosto de 30 a.C., aos 39 anos, para não ser exibida no triunfo de Otaviano. A história famosa diz que uma áspide, uma naja egípcia escondida num cesto de figos, a picou. Mas Plutarco, a fonte principal, admite que ninguém sabia a verdade: nenhuma cobra foi achada, e veneno é igualmente possível.
Revisado em
Presa e vigiada
Cleópatra sobreviveu a Marco Antônio só alguns dias (como ele morreu). O exército de Otaviano ocupava Alexandria desde 1º de agosto de 30 a.C., e ele queria uma coisa acima de tudo: a rainha viva no seu triunfo em Roma. A irmã mais nova dela, Arsínoe, tinha sido exibida pela cidade no triunfo de César em 46 a.C. Cleópatra sabia o que isso significava. Um trecho perdido de Tito Lívio, citado por um comentador antigo de Horácio, conta que ela repetia em grego, sem parar: não serei levada em triunfo.
Proculeio, amigo de Otaviano, entrou no túmulo dela por uma escada, pela janela alta, e a agarrou quando ela puxava um punhal. Ela foi revistada e posta sob guarda. Quando tentou morrer de fome, Otaviano ameaçou os filhos dela. Então um jovem oficial, Cornélio Dolabela, avisou em segredo que ela e as crianças seriam mandadas para Roma dentro de três dias (Plutarco, Antônio 79–84).
O cesto de figos
O que vem a seguir é o relato de Plutarco, escrito mais de um século depois. Ela pediu para fazer oferendas no túmulo de Antônio, tomou banho e fez uma refeição esplêndida. Um homem do campo chegou com um cesto; os guardas olharam, viram figos bonitos e o deixaram passar. Cleópatra mandou a Otaviano uma tabuinha lacrada pedindo para ser enterrada ao lado de Antônio, e fechou as portas. Otaviano leu, entendeu na hora e mandou homens correndo.
Eles a encontraram morta num leito de ouro, vestida de rainha. Das duas criadas, Íras morria aos pés dela, e Charmion, mal se aguentando de pé, ajeitava o diadema na cabeça da rainha. Quando um guarda perguntou, furioso, se aquilo estava certo, Charmion respondeu que sim, e que era digno de uma descendente de tantos reis. Então ela também caiu ao lado do leito (Antônio 85).
Áspide ou veneno?
Aqui Plutarco para e admite que a verdade é desconhecida. Uns diziam que a áspide veio escondida nos figos. Outros, que ela a guardava num jarro de água e a provocou com um fuso de ouro até levar a picada no braço. Outros ainda, que ela levava veneno num alfinete oco no cabelo. Nenhuma cobra foi achada no quarto, embora alguns dissessem ter visto o rastro dela perto do mar, e o braço teria duas marquinhas leves (Antônio 86). O geógrafo Estrabão, que esteve no Egito poucos anos depois, dá as mesmas duas opções: a picada de uma áspide ou um unguento envenenado (Geografia 17.1.10).
Otaviano escolheu a cobra. No seu triunfo de 29 a.C., diz Plutarco, desfilou uma imagem de Cleópatra com a áspide agarrada a ela. Suetônio e Cássio Dio acrescentam que ele chegou a chamar os psilos, encantadores de serpentes do norte da África, para sugar o veneno da ferida, ainda na esperança de salvá-la para o desfile (Augusto 17; Dio 51.14). A ode de Horácio sobre a morte dela a mostra segurando serpentes ferozes, e Virgílio põe duas cobras atrás dela em Ácio.
Muitos historiadores modernos duvidam. A naja egípcia, a “áspide” mais provável, passa muitas vezes de um metro e meio, é difícil de esconder entre figos, e a picada nem sempre mata depressa. Três mulheres morreram naquele dia, e um veneno preparado explicaria isso melhor. Outros respondem que a naja era o emblema da realeza egípcia, erguida na coroa do faraó, e que uma rainha poderia tê-la escolhido de propósito.
A idade, a data e o túmulo
Plutarco dá a idade exata: ela viveu trinta e nove anos, foi rainha por vinte e dois deles e dividiu o poder com Antônio por mais de catorze. O dia é menos certo; a maioria dos historiadores fala em 10 ou 12 de agosto de 30 a.C. Otaviano deixou que ela fosse enterrada ao lado de Antônio com honras reais, mas o túmulo nunca foi encontrado. Com ela acabou a dinastia dos Ptolomeus, depois de quase três séculos, e o Egito virou província pessoal de Otaviano. O filho dela com César, Cesarião, foi caçado e morto (o filho de César). Shakespeare depois pôs a áspide no seio dela. Os escritores antigos que falam de picada a põem no braço.
Fontes
- Plutarco, Vida de Antônio 79–86
- Cássio Dio, História Romana 51.11–15
- Estrabão, Geografia 17.1.10; Suetônio, Augusto 17
- Horácio, Odes 1.37, com o comentário de Porfirião (citando Tito Lívio); Virgílio, Eneida 8.696–697
- William Shakespeare, Antônio e Cleópatra, ato 5, cena 2