A resposta curta
Vladimir Herzog foi morto sob a guarda do Exército, no DOI-Codi de São Paulo, em 25 de outubro de 1975, horas depois de se apresentar para depor. O Exército anunciou suicídio e divulgou uma foto apresentada como prova. Em 1978, ainda na ditadura, um juiz federal declarou a União responsável pela prisão ilegal e pela morte.
Revisado em
Quem era Herzog
Vladimir Herzog nasceu em 1937 na antiga Iugoslávia, numa família judia que fugiu da Segunda Guerra e chegou ao Brasil quando ele era menino. Em 1975, aos 38 anos, era diretor de jornalismo da TV Cultura, a emissora pública de São Paulo. O general Ernesto Geisel prometia uma distensão lenta, mas em São Paulo o DOI-Codi, centro de informações e interrogatório do Exército, continuava trabalhando.
Sábado, 25 de outubro de 1975
Herzog foi chamado para prestar depoimento e, na manhã de sábado, se apresentou ao DOI-Codi por conta própria. À tarde, estava morto, sob a guarda do Exército. O Exército anunciou que ele tinha se matado na cela e divulgou uma foto apresentada como prova. Pouca gente acreditou.
A decisão do rabino
Informado das marcas no corpo, o rabino Henry Sobel decidiu: Herzog não seria enterrado como suicida. Pela tradição judaica, quem tirava a própria vida era sepultado numa área separada do cemitério. Herzog foi enterrado como qualquer outro, e o próprio enterro dizia à cidade que a comunidade não aceitava a versão oficial.
Em 31 de outubro, a Catedral da Sé recebeu um culto ecumênico, celebrado pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Sobel e pelo pastor presbiteriano Jaime Wright. A polícia montou barreiras pela cidade, e mesmo assim mais de 8 mil pessoas lotaram a praça. Foi o primeiro grande ato público contra a ditadura desde 1968.
A segunda morte
Três meses depois, em janeiro de 1976, o operário Manoel Fiel Filho morreu no mesmo DOI-Codi, e a versão oficial se repetiu. Desta vez, Geisel demitiu o comandante do Segundo Exército. Era um recado à linha dura, que resistia à distensão: a abertura tinha dono.
O que a Justiça decidiu
A família foi à Justiça. Em 27 de outubro de 1978, ainda na ditadura, um juiz federal declarou a União responsável pela prisão ilegal e pela morte de Herzog. Era uma sentença contra o regime, dada dentro do regime. Em 2013, a família recebeu um novo atestado de óbito, que deixou de registrar suicídio, e em 2018 a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil pelo caso. Herzog está entre os 434 mortos e desaparecidos confirmados pela Comissão Nacional da Verdade em 2014.
Onde você já ouviu esse nome
O nome dele batiza o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, conhecido de quem trabalha com jornalismo no Brasil. Os generais daqueles anos, e o papel de Geisel na abertura, estão em Quem foram os presidentes da ditadura militar?.
Fontes
- Sentença da Justiça Federal em São Paulo, 27 de outubro de 1978 (ação da família Herzog contra a União)
- Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Herzog e outros vs. Brasil, sentença de 15 de março de 2018
- Comissão Nacional da Verdade, Relatório, volume III (dezembro de 2014)
- Elio Gaspari, A ditadura encurralada (2004)
- Brasil: Nunca Mais (Vozes, 1985)