A resposta curta
Para avisar os leitores de que havia censura. Nos anos 1970, o Jornal da Tarde, de São Paulo, publicava receitas de bolo no lugar das notícias cortadas pelos censores, e algumas, conta-se, não davam certo de propósito. O Estado de S. Paulo, do mesmo grupo, preferia versos de Os Lusíadas, de Camões, publicados mais de 600 vezes.
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O bolo no lugar da notícia
Imagine abrir o jornal e encontrar, entre as notícias de política, uma receita de bolo. Foi o que os leitores do Jornal da Tarde, de São Paulo, viram muitas vezes nos anos 1970. A receita não estava ali por acaso: ocupava o espaço de uma reportagem que o censor tinha vetado. Algumas, conta-se, não davam certo de propósito, e leitoras ligavam para a redação para reclamar. Era o recado: aqui houve censura.
Camões no Estadão
O Estado de S. Paulo, do mesmo grupo, tinha apoiado a queda de Jango em 1964. Anos depois, rompido com o regime, convivia com censores dentro da redação. Escolheu outra arma: Os Lusíadas, o poema épico de Luís de Camões, publicado em 1572. No lugar das notícias cortadas, o jornal imprimiu estrofes do poema mais de 600 vezes. Para quem lia com atenção, versos do século XVI no meio do noticiário só podiam querer dizer uma coisa: ali havia uma notícia proibida.
Os dois jornais não podiam contar o que tinha sido cortado. Podiam, porém, mostrar que alguma coisa tinha sido cortada. O poema e a receita eram isso: uma janela fechada, deixada à vista de todos.
O mito do Estadão
Muita gente se lembra das receitas de bolo no Estadão. Elas não estavam lá. Como mostra a pesquisadora Sandra Reimão, da USP, o Estadão publicava Camões, e as receitas saíam no Jornal da Tarde. A confusão tem explicação: os dois jornais eram da mesma família, os Mesquita, e passavam pela mesma tesoura. Na memória, Camões e o bolo acabaram virando uma coisa só.
Como a censura chegou às redações
A censura à imprensa ganhou força com o AI-5, de 13 de dezembro de 1968. Na manhã seguinte, já havia censores nas redações. O Jornal do Brasil, do Rio, deu o recado na previsão do tempo:
Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável.
Sem poder comentar o ato, o jornal falou do clima, e quem leu entendeu. Anos depois, os versos e as receitas fizeram o mesmo, com outros ingredientes.
Não era só nos jornais
A tesoura alcançava também a música, o teatro e os livros. Em setembro de 1968, milhares de pessoas cantaram juntas, no Maracanãzinho, “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré. A música ficou em segundo lugar no festival. Depois, foi proibida.
Por trás da tesoura havia um país de vitrine, o do milagre econômico, com os porões longe das páginas.
Fontes
- O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, edições de 1973 a 1975 (Acervo Estadão)
- Jornal do Brasil, 14 de dezembro de 1968, previsão do tempo (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)
- Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968
- Sandra Reimão (USP), estudos sobre a censura na ditadura militar
- Elio Gaspari, A ditadura escancarada (2002)