História do Brasil · História

O que foi o milagre econômico?

A resposta curta

Foi o período de 1968 a 1973, já na ditadura militar, em que a economia cresceu mais de 10% ao ano, com 14% em 1973. O governo Médici falava em milagre, erguia a ponte Rio-Niterói e abria a Transamazônica. A conta veio junto: renda mais concentrada, salário mínimo em queda e dívida externa mais que triplicada.

Revisado em

Os números

Entre 1968 e 1973, a economia brasileira cresceu mais de 10% ao ano. Em 1973, último ano inteiro do governo do general Emílio Garrastazu Médici, o PIB subiu 14%. O governo chamou aquilo de milagre brasileiro, e o nome pegou. Saíram do papel a ponte Rio-Niterói e a rodovia Transamazônica, e em 1973 Brasil e Paraguai assinaram o tratado da usina de Itaipu.

Como foi possível? Havia dinheiro sobrando nos bancos do mundo, e o Estado tomou empréstimos lá fora para investir em estradas, energia e indústria. As exportações cresceram, e a classe média passou a comprar carro e eletrodoméstico a prestação.

O clima do tri

Em 21 de junho de 1970, na Cidade do México, o Brasil goleou a Itália por 4 a 1 e foi tricampeão do mundo. Dias depois, em Brasília, Médici ergueu a taça ao lado dos jogadores. Nas rádios, tocava “Pra frente, Brasil”. Nos vidros dos carros, um adesivo resumia o clima oficial: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. O governo queria que o país inteiro se sentisse campeão.

A conta

O milagre teve preço. A renda se concentrou: o índice de Gini, que mede a desigualdade, subiu de 0,50 em 1960 para 0,57 em 1970. O salário mínimo perdeu valor. A dívida externa foi de cerca de 3,8 bilhões para 12,6 bilhões de dólares entre 1968 e 1973. Atribuem ao próprio Médici uma frase de 1970 que ficou famosa: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”.

Os economistas concordavam nos números e brigavam na explicação. Albert Fishlow culpou sobretudo a política do governo, que segurava os reajustes de salário. Carlos Langoni, num estudo de 1973, atribuiu a maior parte da diferença à falta de mão de obra qualificada num país que crescia depressa: quem tinha mais estudo via o salário subir mais.

A vitrine e os porões

Os anos do milagre foram também os anos mais duros da repressão. Enquanto a economia corria, os DOI-Codi do Exército prendiam e torturavam opositores, e a Comissão Nacional da Verdade contaria depois os mortos desse período entre os 434 mortos e desaparecidos políticos. O milagre e os anos de chumbo aconteceram ao mesmo tempo, sob os mesmos generais-presidentes.

Como acabou

No fim de 1973, o choque do petróleo encareceu o combustível que o Brasil comprava em grande parte de fora, e o crescimento perdeu fôlego. A dívida ficou. Dez anos depois, ela estourou, e em 1983 os preços subiram 164%. O milagre tinha corrido com dinheiro emprestado, e a conta chegou nos anos 1980.

Fontes

  • IBGE, Estatísticas do Século XX (séries do PIB)
  • Banco Central do Brasil, séries históricas da dívida externa
  • Albert Fishlow, “Brazilian Size Distribution of Income”, American Economic Review (1972)
  • Carlos Geraldo Langoni, Distribuição da renda e desenvolvimento econômico do Brasil (1973)
  • Boris Fausto, História do Brasil (1994)