A resposta curta
A Bíblia não diz. Isaías some do registro depois do rei Ezequias. Uma tradição posterior, contada na Ascensão de Isaías, no Talmude e por escritores cristãos antigos, diz que Manassés, filho de Ezequias, mandou serrá-lo ao meio, e muitos leitores a reconhecem em Hebreus 11:37: “Foram serrados ao meio.” É tradição, não registro.
Revisado em
O que a Bíblia diz
Nada. O livro situa as visões de Isaías no tempo de quatro reis de Judá, “Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias” (Isaías 1:1). A última cena dele é com Ezequias, depois da visita dos enviados da Babilônia: o rei ouve uma profecia dura e responde aliviado que pelo menos haverá “paz e verdade” nos seus dias (2 Reis 20:19). As Crônicas acrescentam que Isaías escreveu os atos de Uzias e de Ezequias (2 Crônicas 26:22; 32:32). Depois disso, ele desaparece.
O filho de Ezequias foi outra história. Manassés virou rei aos doze anos e reinou cinquenta e cinco (2 Reis 21:1), o reinado mais longo de Judá e, aos olhos do livro, o pior. O livro dos Reis guarda uma lembrança em especial.
Além disso, Manassés derramou muitíssimo sangue inocente, até encher Jerusalém de uma extremidade à outra
O texto não diz quem eram as vítimas. Flávio Josefo, no século I d.C., conta que Manassés matava profetas dia após dia, e também não cita nenhum (Antiguidades 10.38). A tradição se encarregou de dar o nome.
A Ascensão de Isaías
A versão mais completa está na Ascensão de Isaías, uma obra cristã do século I ou II d.C. que talvez reaproveite uma lenda judaica mais antiga. Ela só sobreviveu inteira em gueês, a antiga língua litúrgica da Etiópia. Os cinco primeiros capítulos contam o martírio. Um falso profeta chamado Belkira acusa Isaías diante de Manassés, e o rei manda prendê-lo e serrá-lo ao meio com um serrote de madeira. Isaías não grita nem chora, diz o texto; os lábios dele continuam falando com o Espírito Santo até ele ser partido em dois. A segunda metade do livro é a visão de Isaías subindo pelos sete céus.
A versão do Talmude
Os rabinos contam a história com uma reviravolta (Talmude Babilônico, Yevamot 49b). Manassés põe Isaías em julgamento por contradizer Moisés. Moisés ouviu de Deus que “o homem não pode me ver e viver” (Êxodo 33:20), e Isaías escreveu “eu vi o Senhor” (Isaías 6:1). Isaías não se defende. Pronuncia um nome sagrado e é engolido por um cedro. Manassés manda serrar a árvore, e quando a serra chega à boca de Isaías, ele morre. Por que a boca? Porque, dizem os rabinos, ele tinha chamado o próprio povo de “povo de lábios impuros” (Isaías 6:5).
O versículo de Hebreus
No século I a história já era conhecida o bastante para deixar marca no Novo Testamento. Hebreus 11 enumera os heróis da fé, e perto do fim vem uma linha que não cita nomes.
Foram apedrejados. Foram serrados ao meio. Foram tentados. Foram mortos ao fio da espada.
Nenhum herói do Antigo Testamento morre assim nas páginas da Bíblia, então muitos leitores, antigos e modernos, ouvem ali Isaías. Outros testemunhos antigos confirmam a tradição. As Vidas dos Profetas, uma coleção judaica mais ou menos da mesma época, começam por ele: morreu no tempo de Manassés, serrado ao meio. Por volta de 160 d.C., Justino Mártir escreve, no Diálogo com Trifão, que Isaías foi serrado com um serrote de madeira (capítulo 120).
É história?
Talvez, mas ninguém consegue conferir. As datas permitem: chamado por volta de 740 a.C., Isaías seria um homem velho nos primeiros anos de Manassés, meio século depois. Só que a história aparece pela primeira vez séculos depois dos fatos, e cada versão acrescenta detalhes próprios. O que ela mostra com clareza é como Isaías foi lembrado: o profeta que viu Deus e pagou pelo que disse. Na arte cristã, ele muitas vezes segura uma serra. As palavras dele sobreviveram ao rei que o calou: nenhum profeta é mais citado no Novo Testamento.
Fontes
- Isaías 1:1; 6:1–5; 2 Reis 20:12–21:16; 2 Crônicas 26:22; 32:32; Hebreus 11:37
- Ascensão de Isaías 1–5
- Talmude Babilônico, Yevamot 49b
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 10.38; Vidas dos Profetas 1; Justino Mártir, Diálogo com Trifão 120
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.