A resposta curta
É a resposta de Isaías quando ouve Deus perguntar “A quem enviarei, e quem irá por nós?”, numa visão no Templo de Jerusalém, por volta de 740 a.C. (Isaías 6:8). Em hebraico são duas palavras, hineni shelacheni. Querem dizer prontidão total: Isaías se oferece antes de conhecer a missão, e a missão é dura.
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A visão por trás das palavras
“No ano em que o rei Uzias morreu”, por volta de 740 a.C., Isaías vê o Senhor num trono alto, no Templo, com serafins de seis asas clamando “Santo, santo, santo” até as soleiras tremerem (Isaías 6:1–4). A primeira reação dele não é coragem, é pavor: “Ai de mim! Pois estou perdido”. Ele é um homem de lábios impuros e viu o Rei. Um serafim toca a boca dele com uma brasa viva tirada do altar, e a culpa é removida. Só então vem a pergunta.
Eu ouvi a voz do Senhor, dizendo: “A quem enviarei, e quem irá por nós?” Então eu disse: “Eis-me aqui. Envie-me!”
A frase que muitos brasileiros sabem de cor, “eis-me aqui, envia-me a mim”, é a forma das traduções mais antigas. O sentido é o mesmo.
Hineni, a resposta de quem está pronto
“Eis-me aqui” traduz uma única palavra hebraica, hineni. Não fala de lugar. Quer dizer: estou presente, estou ouvindo, estou à disposição. As grandes figuras da Bíblia hebraica respondem a Deus com ela.
- Abraão, quando Deus o chama antes da prova no monte Moriá: “Eis-me aqui” (Gênesis 22:1).
- Moisés, quando Deus o chama pelo nome do meio da sarça ardente (Êxodo 3:4).
- Samuel, menino dormindo no santuário de Siló, chamado no meio da noite (1 Samuel 3:4).
A cena de Isaías tem uma diferença. Ninguém chama o nome dele. Deus faz uma pergunta aberta, e Isaías dá um passo à frente. Ainda acrescenta uma segunda palavra, shelacheni, “envia-me”. O “nós” da pergunta tem o seu próprio debate. Muitos estudiosos e comentaristas judeus imaginam Deus falando com a sua corte celeste, como na visão do profeta Micaías, com “todo o exército dos céus” em volta do trono (1 Reis 22:19–22). Muitos leitores cristãos ouviram ali a Trindade.
Voluntário antes de saber o serviço
A missão é uma das mais duras da Bíblia. Isaías deve dizer ao povo: “Vocês ouvem de fato, mas não entendem”, e a pregação dele só vai tornar gordo o coração e pesados os ouvidos do povo (Isaías 6:9–10). Quando ele pergunta “Senhor, até quando?”, a resposta é: até que as cidades fiquem desertas, e mesmo então só restará um toco. Mas “a santa semente é o seu toco” (6:11–13). O Novo Testamento volta a essa missão quando as multidões se recusam a ouvir (Mateus 13:14–15; João 12:39–41; Atos 28:25–27).
Outros profetas resistem ao chamado. Moisés implora: “Ah, Senhor, por favor, envie outra pessoa” (Êxodo 4:13). Jeremias protesta que é só um menino (Jeremias 1:6). Jonas compra passagem para o lado oposto, para Társis (Jonas 1:3), como conta por que Jonas fugiu de Deus. Isaías é o voluntário, e segue firme por uns quarenta anos, da morte de Uzias ao cerco assírio de 701 a.C., no reinado de Ezequias.
Como a frase é usada hoje
O versículo é lido em ordenações e em cultos e missas de envio de missionários, e virou lema de quem se apresenta para servir. No dia a dia, “eis-me aqui” quer dizer se oferecer antes de saber o preço. Foi exatamente o que Isaías fez.
Fontes
- Isaías 6:1–13
- Gênesis 22:1, 11; Êxodo 3:4; 4:13; 1 Samuel 3:4; Jeremias 1:6; Jonas 1:3
- 1 Reis 22:19–22
- Mateus 13:14–15; João 12:39–41; Atos 28:25–27
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.