Mitos gregos · Textos

Como termina a Odisseia?

A resposta curta

Com paz, mas sem ponto final. Depois do reencontro com Penélope, Odisseu procura o pai, Laertes, no vinhedo, e as famílias dos pretendentes pegam em armas para se vingar. Atena, com a aparência de Mentor, interrompe a luta e faz os dois lados jurarem a paz. Mas Odisseu ainda deve a Tirésias uma viagem terra adentro com um remo.

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Depois do reencontro

O canto 23 reúne marido e mulher por meio do teste da cama, e muita gente acha que a história poderia parar ali. Alguns leitores antigos, ao que parece, também achavam. Conta-se que os estudiosos alexandrinos Aristófanes de Bizâncio e Aristarco chamaram o verso 23.296, em que o casal vai para a cama, de fim da Odisseia. O que eles quiseram dizer ainda é discutido, e muitos especialistas hoje defendem o canto 24 como parte do poema. Antes mesmo desse verso, porém, Odisseu já tinha avisado: “Mulher, ainda não chegamos ao fim das nossas provações.”

O remo que falta

O problema é uma profecia. Na terra dos mortos, o adivinho Tirésias disse a Odisseu que, depois de chegar em casa, ele teria de partir de novo com um remo no ombro, até encontrar um povo que não conhecesse o mar nem pusesse sal na comida. Quando um estranho lhe perguntasse por que carregava uma pá de abanar trigo, ele deveria fincar o remo no chão e sacrificar um carneiro, um touro e um javali a Poseidon. Só então poderia voltar para ficar, à espera de uma morte suave na velhice, longe do mar ou vinda do mar: o grego permite as duas leituras. Penélope ouve tudo na primeira noite dos dois juntos e responde com calma que, se os deuses lhes derem uma velhice mais feliz, ainda há esperança.

Laertes no vinhedo

O canto 24 começa no mundo dos mortos, onde as sombras dos pretendentes encontram Agamêmnon, que elogia a fidelidade de Penélope e a compara à traição da própria mulher. Depois, Odisseu vai atrás do pai. Laertes está sozinho no sítio, cavando em volta de uma videira, de camisa remendada e perneiras de couro contra os espinhos. Nem ali Odisseu resiste a um teste: conta primeiro uma história inventada, até o velho jogar terra na cabeça de tanta dor. Então mostra a cicatriz do javali e enumera as árvores que ganhou do pai quando menino: treze pereiras, dez macieiras, quarenta figueiras e cinquenta fileiras de videiras.

As famílias e a paz

Enquanto isso, Ítaca descobre o que aconteceu no palácio. Os pretendentes eram filhos das principais famílias da ilha, e os parentes se armam sob o comando de Eupites, pai de Antínoo, embora mais da metade da assembleia se recuse a segui-lo. Odisseu, o filho, o pai e um punhado de empregados fiéis saem ao encontro deles. Começa uma luta curta, e o velho Laertes, com forças renovadas por Atena, mata Eupites. Nesse momento, a deusa grita:

Homens de Ítaca, parem com esta guerra terrível e resolvam a questão agora mesmo, sem derramar mais sangue.

Homero, Odisseia 24.531–532

Os atacantes largam as armas e fogem. Zeus manda um raio como aviso, e Odisseu obedece. Nos últimos versos do poema, Atena, de novo com a forma e a voz de Mentor, firma um pacto de paz entre os dois lados. Zeus já tinha ditado os termos: Odisseu continua rei, e os deuses fazem as famílias esquecer a morte dos filhos e irmãos.

Paz, não um final

Assim a Odisseia para: Odisseu em casa, o palácio livre dos invasores, a guerra entre famílias encerrada por ordem divina e uma viagem ainda pendente. Poetas posteriores puxaram esse fio solto. A Telegonia, continuação perdida que conhecemos por um resumo de Proclo, faz Odisseu cumprir os sacrifícios de Tirésias, viajar de novo e por fim morrer pelas mãos de Telégono, filho dele com Circe, que não o reconhece. Dante o manda além das Colunas de Hércules para naufragar; o velho Ulisses de Tennyson (1842) não aguenta ficar em casa e parte de novo, decidido a “lutar, buscar, encontrar e não ceder”. Homero deixa tudo isso em aberto. Dá ao casal a paz e deixa a estrada esperando.

Fontes

  • Homero, Odisseia 23.241–296 e 24
  • Homero, Odisseia 11.119–137 (a profecia de Tirésias)
  • Escólios à Odisseia 23.296 (Aristófanes de Bizâncio e Aristarco)
  • Proclo, Crestomatia, resumo da Telegonia de Eugámon de Cirene
  • Dante, Inferno 26; Alfred Tennyson, “Ulysses” (1842)