A resposta curta
Ela o testou com um segredo que só ele poderia saber. Depois da morte dos pretendentes, Penélope mandou a ama tirar a cama do marido do quarto. Odisseu explodiu: ninguém conseguiria mover aquela cama, porque ele mesmo a construíra em volta do tronco de uma oliveira viva. A raiva dele, e o segredo, a convenceram.
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Primeiro, o mendigo
Odisseu volta para casa com o disfarce de mendigo velho que Atena lhe deu, e durante dias a mulher não o reconhece. Outros reconhecem. O filho fica sabendo da verdade na cabana do porqueiro, e o primeiro a perceber quem ele é sem que ninguém conte é o velho cão Argos, no portão do palácio. Penélope apenas interroga o estranho. Uma noite, junto ao fogo, ela diz: “Agora, estrangeiro, vou pôr você à prova.” E pergunta como o marido se vestia vinte anos antes. O mendigo descreve um manto de lã púrpura e um broche de ouro com um cão segurando um filhote de cervo entre as patas. Penélope chora: foi ela quem deu ao marido aquele manto e aquele broche. Ela se comove, mas aquilo não prova nada. Qualquer um que tivesse conhecido Odisseu saberia dizer isso.
A cicatriz
Na mesma noite, a velha ama Euricleia, que tinha cuidado de Odisseu desde bebê, lava os pés do mendigo. Ele se afasta da luz do fogo, mas tarde demais. Ela sente na perna dele a cicatriz deixada pela presa de um javali, numa caçada no monte Parnaso com o avô, Autólico, e o reconhece na hora. Ela solta o pé, a bacia de bronze ressoa e vira, e a água se espalha. Euricleia olha para Penélope, mas Atena desviou a atenção da rainha, e Odisseu segura a ama e a obriga a ficar calada. Antes de dormir, Penélope conta ao mendigo o que decidiu: no dia seguinte, vai propor a prova do arco.
A cautela dela
Depois da morte dos pretendentes, Euricleia sobe rindo para acordá-la. Penélope diz que a ama enlouqueceu: algum deus deve ter matado aqueles homens, e Odisseu morreu longe dali. Ela desce e se senta diante do homem junto ao fogo, em silêncio, ora olhando bem para o rosto dele, ora enganada pelos trapos. Telêmaco a acusa de ter um coração mais duro que pedra. A resposta dela revela um plano: existem sinais que só os dois conhecem, escondidos de todos os outros. Odisseu sorri e deixa que ela o teste. Mais tarde, ela explica a demora: durante anos teve medo de que alguém aparecesse e a enganasse com uma história mentirosa.
A cama
De banho tomado e bem vestido, Odisseu faz um pouco de pressão. Nenhuma outra mulher, diz ele, ficaria longe de um marido que volta depois de vinte anos; vai dormir sozinho. Penélope responde mandando Euricleia levar para fora a cama do quarto que ele mesmo construiu. É a armadilha, e ele cai direto nela:
Mulher, estou muito descontente com o que você acaba de dizer. Quem andou tirando a minha cama do lugar em que eu a deixei?
Aquela cama não sai do lugar sem que se derrube uma árvore. Havia uma oliveira nova dentro dos muros do palácio; ele ergueu o quarto em volta dela, cortou os galhos, transformou o tronco em pé da cama e montou a cama sobre ele, com incrustações de ouro e prata. Além dos dois, só uma criada a tinha visto. Desta vez quem se trai é o rei dos disfarces, e a fúria dele vale como prova.
Um só pensamento
Penélope corre para ele chorando e pede que não fique zangado: “O céu nos negou a felicidade de passar a juventude e envelhecer juntos.” Homero compara a alegria dela ao alívio de um náufrago que alcança a terra, exatamente o que Odisseu tinha vivido na Esquéria, como se os dois tivessem feito a mesma travessia. É o que ele um dia desejou à princesa que o encontrou: marido e mulher com um só pensamento. Atena segura a aurora para dar aos dois uma noite mais longa. Mas a história não termina aí: as famílias dos mortos ainda querem vingança.
Fontes
- Homero, Odisseia 19.215–250, 19.386–475 e 23.1–246