A resposta curta
Nausícaa é a jovem princesa dos feácios, filha do rei Alcínoo, nos cantos 6 a 8 da Odisseia. Levada ao rio por um sonho, ela encontra Odisseu náufrago, não foge quando as criadas correm e dá a ele roupas, comida e um plano para conquistar a mãe dela. Na despedida, pede apenas que ele não a esqueça.
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A princesa e a roupa suja
Odisseu chega à Esquéria meio afogado, depois que Poseidon despedaça a jangada dele, e dorme debaixo de folhas secas perto da foz de um rio. A ilha é dos feácios, navegadores que vivem isolados do resto do mundo; gregos de épocas posteriores, a começar pelo povo de Corfu, diziam que a Esquéria era a ilha deles. Naquela noite, Atena aparece em sonho à filha do rei, com a aparência de uma amiga, com o recado de que a roupa anda largada e o casamento está perto. Ao amanhecer, Nausícaa pede uma carroça ao pai. Ela o chama de “papai querido”, fala dos irmãos, que precisam de roupa limpa para os bailes, e não diz uma palavra sobre o próprio casamento. O pai entende mesmo assim.
A que não fugiu
No rio, as moças lavam a roupa e vão jogar bola. Um arremesso cai na água funda, elas gritam, e um estranho nu, coberto de sal, sai do mato segurando um galho cheio de folhas. As criadas se espalham. Nausícaa fica, porque Atena lhe pôs coragem no coração. Odisseu fala de longe, para não ofendê-la abraçando os joelhos dela, como faziam os suplicantes, e deseja a ela marido e casa, pois nada é melhor que marido e mulher com um só pensamento. A frase volta quando Penélope põe o marido à prova.
A resposta dela é prática. Quem chega de fora é protegido por Zeus, lembra ela às criadas; por isso, deem comida ao homem e deixem que ele se lave. Depois, entrega um plano: seguir a carroça, mas esperar fora da cidade, porque o povo vai falar se a princesa aparecer com um estranho bonito; no palácio, ignorar o rei e ir direto à rainha Arete, a mãe dela. Às criadas, em particular, Nausícaa confessa que gostaria de um marido assim.
Odisseu se casou com Nausícaa?
Não. O rei Alcínoo, encantado com o hóspede, diz com todas as letras que gostaria de tê-lo como genro, mas promete que ninguém vai segurá-lo contra a vontade e lhe dá um navio. Antes da partida, Nausícaa espera junto a uma coluna do salão para se despedir: “não se esqueça de mim quando estiver de novo em casa, a salvo”, pede ela, lembrando que ele lhe deve a vida. Ele promete abençoá-la todos os dias, “pois foi você quem me salvou”. Depois disso, Homero nunca mais fala dela.
A canção que o fez chorar
No banquete daquela noite, Odisseu, ainda sem dizer o nome, pede ao cantor cego Demódoco a história do cavalo de madeira, o truque que ele mesmo inventou. E Homero lhe reserva uma imagem surpreendente:
Ele chorou como chora uma mulher que se atira sobre o corpo do marido, caído diante da própria cidade e do seu povo, lutando com bravura em defesa do lar e dos filhos.
O destruidor de Troia chora como uma das viúvas que ele mesmo fez. Só Alcínoo percebe. Interrompe a canção e pergunta o nome do hóspede, e enfim Odisseu se apresenta. Se houve mesmo um cavalo em Troia, é outra conversa.
Uma Odisseia escrita por mulher?
Para quem aparece em apenas três cantos, Nausícaa teve uma longa vida fora do poema. Em 1897, Samuel Butler, cuja tradução da Odisseia sairia em 1900, defendeu no livro The Authoress of the Odyssey (a autora da Odisseia) que o poema tinha sido escrito por “uma moça muito jovem” de Trapani, na Sicília, que teria se retratado como Nausícaa. Pouca gente concordou. O cineasta Hayao Miyazaki batizou com o nome dela a heroína do filme Nausicaä do Vale do Vento (1984).
Fontes
- Homero, Odisseia 5.282–493, 6, 7.1–347, 8.457–586 e 13.1–187
- Tucídides, História da Guerra do Peloponeso 1.25
- Samuel Butler, The Authoress of the Odyssey (1897), e o prefácio da tradução inglesa (1900)