Mitos gregos · Números

Quantos pretendentes Penélope tinha?

A resposta curta

Cento e oito, pela conta de Telêmaco no canto 16 da Odisseia: 52 de Dulíquio, 24 de Same, 20 de Zacinto e 12 da própria Ítaca, fora os criados, um arauto e um cantor. Por mais de três anos, eles se banquetearam no palácio de Odisseu, pressionando Penélope a se casar com um deles, até a prova do arco.

Revisado em

A conta

Homero dá o número uma vez só, e ele chega como um susto. Na cabana do porqueiro, Odisseu acaba de se revelar ao filho e pergunta quantos inimigos os dois vão enfrentar. Telêmaco responde:

Não são só dez pretendentes, nem duas vezes dez, mas muitas vezes dez; você já vai saber quantos são. De Dulíquio vieram cinquenta e dois rapazes escolhidos, com seis criados; de Same são vinte e quatro; de Zacinto, vinte jovens aqueus; e doze da própria Ítaca, todos de boa família.

Homero, Odisseia 16.245–251

Somando, dá 108. Telêmaco conta ainda a comitiva: os seis criados dos rapazes de Dulíquio, o arauto Médon, um cantor e dois trinchadores. Do outro lado, um mendigo, um rapaz e, como se verá depois, dois pastores leais. Penélope cita as mesmas quatro ilhas quando desabafa com o estrangeiro junto ao fogo: os nobres de Dulíquio, de Same, de Zacinto e da própria Ítaca a cortejam contra a vontade dela.

Quem eram

Eram a jovem nobreza de Ítaca e das ilhas vizinhas, de olho numa mulher cujo marido sumira havia tanto tempo que todos o davam por morto. Quem casasse com ela levaria uma rainha, uma casa rica e, talvez, o comando da ilha. Ninguém fazia a corte de longe. Eles se instalaram no palácio. Dia após dia, matavam o gado, as ovelhas, as cabras e os porcos do rei ausente e bebiam o vinho dele, fazia três anos e quase quatro, nas palavras do próprio líder, enquanto Penélope os enrolava com a famosa teia. Quando Telêmaco viajou atrás de notícias do pai, armaram uma emboscada no mar para matá-lo na volta.

Dois deles lideram. Antínoo, filho de Eupites, é o mais atrevido e o mais cruel: chega a atirar um banquinho no mendigo, dentro da casa que é do próprio mendigo. Eurímaco é mais polido e não é melhor. Homero destaca um único homem decente, Anfínomo, de Dulíquio, cuja conversa Penélope preferia e que se opôs ao plano de matar Telêmaco. Disfarçado, Odisseu chega a aconselhá-lo a voltar para casa enquanto é tempo. Ele fica.

A prova do arco

Quem encerra a espera é Penélope. Ela traz o grande arco que Ífito deu a Odisseu como prova de amizade e promete se casar com quem conseguir armá-lo e atirar uma flecha através de doze machados enfileirados. Telêmaco finca os machados e, na quarta tentativa, quase arma o arco, até que o pai lhe faz sinal para parar. Os pretendentes fracassam um depois do outro, mesmo esquentando o arco no fogo e passando banha nele. Antínoo propõe adiar a disputa, porque é dia de festa de Apolo. Quando o mendigo pede a vez, eles protestam, e Penélope não cede: “Deem o arco a ele, e vejamos se consegue armá-lo ou não.”

Ele arma o arco com a facilidade de um cantor que troca a corda da lira. Quando ele dedilha a corda, ela canta “como o gorjeio de uma andorinha”. Uma só flecha atravessa os doze machados.

Por que Odisseu matou os pretendentes?

Aos olhos do poema, eles tinham quebrado o laço entre anfitrião e hóspede, que o próprio Zeus protege: devoraram uma casa que não era deles, maltrataram estrangeiros e tramaram um assassinato. Por isso, Odisseu joga fora os trapos e, com Telêmaco e os dois pastores, luta até não restar nenhum pretendente vivo; só o cantor Fêmio e o arauto Médon são poupados. As famílias viram a coisa de outro jeito, e o último canto da Odisseia gira em torno de uma pergunta: aquela matança vai terminar em guerra entre famílias?

Fontes

  • Homero, Odisseia 2.85–128, 16.241–257, 16.394–398, 17.462–465, 18.119–157, 19.130–133, 21 e 22.330–377