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Quem foi Argos, o cão de Odisseu?

A resposta curta

Argos é o cão de caça de Odisseu na Odisseia, criado pelo próprio herói antes de partir para Troia. Vinte anos depois, velho, abandonado e deitado num monte de esterco, é o primeiro em Ítaca a reconhecer o dono disfarçado sem que ninguém conte: baixa as orelhas e abana o rabo, mas não consegue chegar até ele. Então morre.

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Um cão criado antes da guerra

Homero apresenta Argos num momento tenso do canto 17. Odisseu, que Atena disfarçou de mendigo velho e esfarrapado, acaba de chegar ao portão do próprio palácio com o fiel porqueiro Eumeu, e lá dentro os pretendentes se banqueteiam. Um cão deitado ali perto levanta a cabeça e apura as orelhas. Odisseu o criou antes de partir para Troia, mas nunca chegou a caçar com ele. Nos velhos tempos, os rapazes levavam Argos atrás de cabras selvagens, cervos e lebres. Agora, sem o dono, vive largado no monte de esterco de mula e de boi que se acumula diante do estábulo até os empregados o levarem para adubar os campos. Está coberto de pulgas.

O reconhecimento

Vinte anos mudaram o homem, mas não enganam o cão. Assim que vê o mendigo, Argos sabe quem ele é:

baixou as orelhas e abanou o rabo, mas não conseguiu chegar perto do dono.

Homero, Odisseia 17.301–304

Está velho e fraco demais para se levantar. E Odisseu não pode ir até ele: um mendigo que cumprimentasse o cão do rei como um velho amigo se denunciaria na frente de Eumeu. Por isso enxuga uma lágrima antes que o porqueiro veja e pergunta, como qualquer estranho faria, se aquele belo cão é tão bom quanto parece ou se é só um desses cães que pedem comida em volta da mesa e são criados para enfeitar.

Eumeu responde com orgulho e tristeza. No auge, diz ele, nenhuma fera da floresta escapava daquele cão depois que ele pegava o rastro. Mas o dono morreu longe, e as mulheres da casa não cuidam dele; criado não trabalha quando o patrão não está. Então Eumeu entra no salão, e Homero dedica ao cão uma última frase. Depois de rever Odisseu, no vigésimo ano, Argos morre.

Quantos anos tinha Argos?

Se era filhote quando Odisseu partiu, Argos tinha pelo menos vinte anos, idade que quase nenhum cachorro alcança; a maioria não passa muito dos treze. Homero não estava preenchendo ficha de veterinário. Vinte é o número que mede a Odisseia inteira: dez anos de guerra e mais dez de volta para casa, com Argos esperando o tempo todo. O nome provavelmente quer dizer ‘veloz’ ou ‘brilhante’: Homero chama os cães de caça ligeiros de argoi. Ele não tem nada a ver com Argos Panoptes, o gigante de cem olhos de outros mitos, nem com a cidade grega de Argos.

Por que a cena marcou tanto

Argos ocupa menos de quarenta versos, e os leitores nunca mais o esqueceram. Ele é o contrário dos pretendentes, que moram na casa de Odisseu sem reconhecê-lo, e um contraponto discreto a Penélope, que vai testar o marido com todo o cuidado antes de acreditar. O cão não precisa de teste. A lealdade dele custa tudo e não pede nada, e faz um homem duro esconder as lágrimas.

Fontes

  • Homero, Odisseia 17.290–327
  • Homero, Ilíada 1.50 e Odisseia 2.11, a expressão kunes argoi, ‘cães velozes’