Mitos gregos · Mitos

Cronos e Chronos são o mesmo deus?

A resposta curta

Não. Cronos é o Titã, pai de Zeus; khronos é a palavra grega comum que quer dizer tempo. Em grego, as duas palavras se escrevem diferente, Κρόνος e χρόνος, mas soam parecido, e já na Antiguidade se misturavam: daí o Pai Tempo carregar a foice do Titã. Em português, a confusão é maior, porque os dois costumam virar Cronos.

Revisado em

Duas palavras que só soam iguais

Em grego, o Titã é Kronos, escrito com a letra capa (K): Κρόνος. O tempo é khronos, com a letra qui (X): χρόνος. Um é nome próprio; o outro é substantivo comum, o que está em cronologia, cronômetro, crônica, crônico e sincronizar. Hesíodo, que conta a história de Cronos por volta de 700 a.C., nunca o liga ao tempo, e ninguém sabe ao certo o que o nome Kronos quer dizer.

Em português, a confusão fica ainda mais fácil. O Titã aparece como Cronos (às vezes Crono), e o deus do tempo, quando aparece, também costuma ser grafado Cronos, com a mesma cara. Livros e sites misturam os dois o tempo todo. Por isso vale guardar a regra: o pai de Zeus é Cronos, o Titã da foice; o tempo personificado, quando se quer distinguir, é Chronos, ou khronos, como no grego.

Alguns pensadores antigos chegaram a fazer do Tempo um deus. O filósofo Ferécides de Siros e os poemas órficos puseram Chronos entre as primeiras potências do universo, um ser diferente do Titã que foi pai de Zeus.

Como os antigos misturaram os dois

A mistura é antiga. Os filósofos estoicos gostavam de ler os mitos como lições cifradas sobre a natureza e explicavam Cronos como Chronos: um pai que engole os filhos é o tempo, que consome tudo o que faz nascer. Cícero passou a ideia aos leitores latinos em Sobre a natureza dos deuses (2.64), e acrescentou que Saturno tinha esse nome por estar saciado, saturado, de anos. Quando Cronos e Saturno viraram um deus só, o pai que engolia os filhos virou retrato do próprio tempo. A frase de Ovídio tempus edax rerum, o tempo que devora as coisas (Metamorfoses 15.234), nasce do mesmo jeito de pensar.

Por que o Tempo carrega uma foice

Cronos tinha uma lâmina de verdade. Hesíodo conta que a Terra fez uma grande foice de sílex cinzento e a pôs nas mãos dele para atacar o pai (Teogonia 160–175). O Saturno dos romanos também era um velho deus da semeadura e da colheita, representado com uma lâmina curva. Artistas da Idade Média e do Renascimento fundiram Saturno com o Tempo, e o resultado é a figura do Pai Tempo: um velho de barba, com foice ou gadanha, muitas vezes com ampulheta e às vezes com asas. O historiador da arte Erwin Panofsky reconstituiu essa fusão no ensaio “Father Time” (1939). O pai devorador do quadro de Goya e o velhinho do Ano-Novo têm um antepassado em comum, e um trocadilho.

Saturno, sábado e o planeta

Roma transformou Cronos em Saturno, e Saturno deixou marcas. Em inglês, sábado é Saturday, o dia de Saturno. Em português, não: sábado vem do hebraico shabbat, o dia de descanso. O planeta Saturno, o mais lento dos cinco astros errantes que os antigos conheciam, leva cerca de 29 anos e meio para dar a volta no Sol, um ritmo que combina com um deus ligado ao tempo. A maior lua dele se chama Titã.

Todo dezembro, os romanos celebravam as Saturnais, dias de banquetes, presentes e papéis trocados que evocavam a idade de ouro em que Saturno reinou na Itália. Para os outros nomes romanos da família, de Júpiter a Plutão, veja a lista completa.

Fontes

  • Hesíodo, Teogonia 137–138, 154–182 e 453–506
  • Cícero, Sobre a natureza dos deuses 2.64
  • Ovídio, Metamorfoses 15.234
  • Erwin Panofsky, “Father Time”, em Studies in Iconology (Nova York, 1939)