A resposta curta
Por causa de uma profecia. Na Teogonia de Hesíodo, a Terra e o Céu avisam Cronos de que um dos filhos vai derrubá-lo, como ele derrubou o próprio pai. Por isso ele engole cada filho assim que nasce: Héstia, Deméter, Hera, Hades e Poseidon. Reia salva o sexto, Zeus, entregando ao marido uma pedra enrolada em panos de bebê.
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Uma profecia de família
Cronos chegou ao poder pela força: Hesíodo conta que ele atacou o pai, o Céu, com uma foice e tomou o trono. Casou-se com a irmã, Reia. Então soube pela Terra e pelo Céu que “estava destinado a ser vencido pelo próprio filho” (Teogonia 463–464), e passou a engolir cada criança que nascia. O motivo, em Hesíodo, é poder, não fome. Cronos agia assim para que “nenhum outro dos orgulhosos filhos do Céu ocupasse o posto de rei” entre os deuses (461–462).
O medo é coisa de família. O Céu empurrava os filhos de volta para dentro da Terra. Cronos engole os dele. E Zeus, depois de virar rei, engole a primeira esposa, Métis, quando lhe dizem que o filho dela um dia reinaria sobre os deuses (Teogonia 886–900). Cada rei tenta impedir que o próximo nasça.
Cinco filhos e uma pedra
Os cinco engolidos foram Héstia, Deméter, Hera, Hades e Poseidon. Héstia veio primeiro, por isso foi a última a sair; um hino homérico a chama de “a primeira filha do astuto Cronos, e também a mais nova” (Hino a Afrodite 21–23). Antes do sexto parto, Reia pediu um plano aos próprios pais. Eles a mandaram para Creta, onde a Terra escondeu o recém-nascido numa gruta, e Reia armou o truque que o salvou:
ao poderoso filho do Céu, o antigo rei dos deuses, ela deu uma grande pedra envolta em cueiros. Ele a tomou nas mãos e a enfiou ventre abaixo: desgraçado! não sabia no coração que, no lugar da pedra, ficava para trás o seu filho, invencível e sereno
Autores posteriores completam a infância em Creta. Uma cabra chamada Amalteia amamenta o bebê, e rapazes armados, os Curetes, batem as lanças nos escudos para que o pai não ouça o choro (Apolodoro 1.1.6–7).
Como os filhos voltaram
Zeus cresceu depressa. Em Hesíodo, a Terra engana Cronos e o faz pôr para fora tudo o que engoliu, “primeiro a pedra, que ele tinha engolido por último” (Teogonia 497). Apolodoro dá o crédito a Métis, que deu a Cronos uma poção (1.2.1). Saíram os irmãos e as irmãs de Zeus, adultos e inteiros, prontos para a guerra contra os Titãs.
Zeus fincou a pedra em Delfos, como sinal para os mortais. Quase novecentos anos depois de Hesíodo, o viajante Pausânias viu ali uma pedra pequena que os guardiões untavam com azeite todo dia e cobriam com lã crua nas festas. Diziam que era a própria pedra que Cronos engoliu (Pausânias 10.24.6).
O que a história quer dizer
Hesíodo conta um mito sobre o poder: um rei que devora o futuro para proteger o presente. Intérpretes antigos, e romanos como Cícero, que conheciam Cronos como Saturno, leram outra coisa: o tempo que consome os próprios anos, uma confusão com a palavra grega que quer dizer tempo, explicada em Cronos e Chronos. Curiosamente, o próprio Hesíodo descreve esse reinado como uma idade de ouro: a primeira raça de mortais “viveu no tempo de Cronos, quando ele reinava no céu” (Trabalhos e dias 111).
Francisco Goya pintou Saturno devorando um filho por volta de 1820, numa parede da própria casa, perto de Madri; hoje o quadro está no Museu do Prado. É a imagem que a maioria das pessoas tem na cabeça. A história de Hesíodo termina de outro jeito: com o truque de uma mãe e uma pedra em Delfos.
Fontes
- Hesíodo, Teogonia 453–506 e 886–900
- Hesíodo, Trabalhos e dias 109–120
- Hino homérico 5, a Afrodite 21–23
- Apolodoro, Biblioteca 1.1.5–1.2.1
- Pausânias, Descrição da Grécia 10.24.6
- Francisco Goya, Saturno devorando um filho (c. 1819–1823), Museu do Prado, Madri