A resposta curta
Do título brasileiro de The Grapes of Wrath, romance de John Steinbeck de 1939. Steinbeck tirou a expressão do Hino de Batalha da República, de Julia Ward Howe, escrito em 1861, que fala de Deus pisando as uvas da ira. Howe se inspirou em Apocalipse 14, onde um anjo lança as uvas “no grande lagar da ira de Deus”.
Revisado em
Uvas, vinhas e lagar
Em inglês o título é The Grapes of Wrath, “as uvas da ira”. A tradução brasileira, As Vinhas da Ira, trocou as uvas pelas vinhas. Nas duas línguas, a imagem vem da Bíblia, mas a frase exata não está nela. Em Apocalipse 14, João vê duas colheitas. Primeiro, alguém semelhante a um filho do homem ceifa a terra com uma foice. Depois um anjo recebe a ordem de juntar “os cachos da videira da terra, pois as uvas da terra estão maduras!”
O anjo lançou a sua foice na terra, ajuntou as uvas da videira da terra e as atirou no grande lagar da ira de Deus. O lagar foi pisado fora da cidade, e do lagar fluiu sangue, que chegou até os freios dos cavalos, numa extensão de mil e seiscentos estádios.
Mil e seiscentos estádios dão cerca de 300 quilômetros. Lagar é o tanque onde se pisavam as uvas: uma bacia cavada na rocha, onde trabalhadores descalços amassavam os cachos até o suco vermelho escorrer por um canal. O Gênesis já chama o vinho de “sangue das uvas” (Gênesis 49:11), e os profetas fizeram da cena uma imagem do julgamento.
Eu pisei o lagar sozinho. Dos povos, ninguém estava comigo. Sim, eu os pisei na minha ira e os pisoteei no meu furor.
O hino da Guerra Civil
Em novembro de 1861, a poeta e abolicionista Julia Ward Howe, de Boston, visitou acampamentos do exército da União perto de Washington e ouviu os soldados cantando “John Brown’s Body”. Um amigo pastor, James Freeman Clarke, sugeriu que ela escrevesse uma letra melhor para a melodia. Ela a escreveu de madrugada, num hotel de Washington, e a revista The Atlantic Monthly a publicou em fevereiro de 1862. A primeira estrofe diz que Deus está pisando a vindima onde estão guardadas as uvas da ira. Para Howe e para os soldados, as uvas eram o mal que Deus ia esmagar: a escravidão.
A melodia é conhecida no Brasil pelo refrão “Glória, glória, aleluia”, e muitas igrejas cantam com ela o hino “Vencendo vem Jesus”. Martin Luther King Jr. encerrou o seu último discurso, em Memphis, em 3 de abril de 1968, com o primeiro verso do hino de Howe.
O romance e o filme
Em 1938, John Steinbeck terminava um romance sobre os Joad, uma família de agricultores de Oklahoma expulsa da terra pela seca e pelos bancos, que parte para a Califórnia e só encontra trabalho a salário de fome. A mulher dele, Carol, achou o título no hino. O livro saiu em 1939, ganhou o Pulitzer e virou filme de John Ford, com Henry Fonda, em 1940, também chamado no Brasil de As Vinhas da Ira. Steinbeck virou a imagem para os pobres: a ira que amadurece agora é a deles. Assim a expressão viajou do lagar de Isaías a Patmos, de Patmos a um hotel em Washington e dali a um acampamento de migrantes na Califórnia.
Fontes
- Apocalipse 14:14–20; 19:15
- Isaías 63:1–6; Gênesis 49:11
- Julia Ward Howe, “Battle Hymn of the Republic”, The Atlantic Monthly (fevereiro de 1862)
- John Steinbeck, As Vinhas da Ira (1939), capítulo 25
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.