A Bíblia · Expressões

De onde vem ‘eu era cego e agora vejo’?

A resposta curta

De João 9:25. Um homem cego de nascença, curado por Jesus e interrogado pelos fariseus, responde: “Uma coisa eu sei: eu era cego e agora vejo.” Em 1772, John Newton, ex-capitão de navio negreiro que virou pastor anglicano, levou a frase para o hino “Amazing Grace”: “was blind, but now I see”, era cego, mas agora vejo.

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O homem que sabia uma coisa

João 9 conta a história de um mendigo de Jerusalém, cego de nascença. Jesus cospe no chão, faz barro, passa nos olhos dele e o manda lavar-se no tanque de Siloé, “que significa ‘Enviado’” (João 9:7). Ele volta enxergando. É sábado, e a cura vira um inquérito. Os vizinhos discutem se ele é o mesmo homem, os fariseus se dividem, os pais não querem se comprometer, e o homem é chamado de novo e intimado a admitir que quem o curou é um pecador. Ele não diz nada além do que sabe.

Ele, portanto, respondeu: “Se ele é pecador, não sei. Uma coisa eu sei: eu era cego e agora vejo.”

João 9:25

Depois perde a paciência: “Por acaso vocês também querem se tornar discípulos dele?” (João 9:27). Eles o expulsam. Jesus vai encontrá-lo, e o capítulo termina transformando a visão numa imagem: ele veio “a fim de que os que não veem vejam; e os que veem se tornem cegos” (João 9:39).

Quem pecou?

A história começa com uma pergunta da época: “Rabi, quem pecou: este homem ou seus pais, para que nascesse cego?” (João 9:2). Muitos achavam que o sofrimento era castigo, ideia que o livro de Jó já tinha combatido. Jesus responde que ninguém pecou (João 9:3). Pouco antes, ele tinha dito “sou a luz do mundo” (João 9:5), não muito depois da Festa dos Tabernáculos, quando os candelabros iluminavam a cidade inteira. O tanque onde o homem se lavou foi achado em 2004, quando operários de uma obra de esgoto no sul da Cidade de Davi bateram nos seus degraus de pedra.

A frase de John Newton

Os ingleses conheciam o versículo na Bíblia do rei Jaime, “whereas I was blind, now I see”, e um homem fez dele o lema da própria vida. John Newton foi para o mar aos onze anos, trabalhou em navios negreiros e chegou a ser mantido como servo por um traficante de escravos na África Ocidental. Numa tempestade na viagem de volta, em 1748, converteu-se. Mesmo assim, comandou navios negreiros até que uma doença o tirou do mar, em 1754. Dez anos depois foi ordenado na Igreja da Inglaterra e se tornou cura de Olney, uma vila de rendeiras em Buckinghamshire, onde ele e o poeta William Cowper escreviam hinos para a reunião de oração semanal.

Perdido e achado, cego e vendo

No fim de 1772, Newton escreveu versos para o dia de Ano-Novo. Nos Olney Hymns (1779), eles levam o título “Faith’s Review and Expectation” e a referência 1 Crônicas 17:16–17, a oração espantada de Davi: “Quem sou eu, SENHOR Deus, e o que é a minha casa, para que você me tenha trazido até aqui?” A primeira estrofe junta duas histórias dos Evangelhos, o filho pródigo que “estava perdido e foi achado” (Lucas 15:24) e o mendigo de João 9: “I once was lost, but now am found, / Was blind, but now I see”, eu estava perdido e fui achado, era cego e agora vejo.

Repare no último verso. Newton escreveu “Was blind, but now I see”, era cego, mas agora vejo. O popular “I once was blind” junta dois versos dele num só.

Como o hino viajou

Na Inglaterra, o hino quase não era cantado. Nos Estados Unidos, ganhou a sua melodia: em 1835, William Walker pôs a letra numa música chamada “New Britain” no seu livro de cânticos Southern Harmony, e é essa a melodia que quase todo mundo canta. A estrofe que começa com “When we’ve been there ten thousand years” não é de Newton; era cantada em igrejas afro-americanas e foi impressa em A cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, em 1852. No Brasil, o hino é cantado com títulos como “Maravilhosa graça” e “Sublime graça”. Newton rompeu o silêncio sobre o tráfico em 1788, com o panfleto Thoughts upon the African Slave Trade, que descrevia os navios por dentro. Morreu em dezembro de 1807, meses depois de o Parlamento abolir o tráfico britânico de escravos.

Fontes

  • João 9:1–41
  • Lucas 15:11–32; 1 Crônicas 17:16–17
  • King James Version (1611), John 9:25
  • John Newton e William Cowper, Olney Hymns (1779)
  • John Newton, Thoughts upon the African Slave Trade (1788); William Walker, The Southern Harmony (1835)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.