Santos e mártires · História

Domiciano perseguiu os cristãos?

A resposta curta

Não como Nero, até onde as fontes mostram. A partir de 170 d.C., escritores cristãos chamaram Domiciano de segundo perseguidor, mas nenhuma fonte romana registra uma campanha contra cristãos. Em 95 d.C. ele executou o primo, Flávio Clemente, por “ateísmo”, e o Apocalipse mostra pressão local na Ásia, com um único mártir citado pelo nome.

Revisado em

O imperador do Apocalipse

Tito Flávio Domiciano governou Roma de 81 a 96 d.C., depois do pai, Vespasiano, e do irmão, Tito. Era um administrador competente e um autocrata desconfiado, que mandou matar senadores de quem desconfiava. Suetônio conta que as cartas dos funcionários dele passaram a começar com uma fórmula nova, dominus et deus noster, “nosso senhor e deus” (Domiciano 13), e o poeta Marcial usou o título em versos (Epigramas 5.8). Em setembro de 96, gente do próprio palácio o matou a punhaladas. O Senado condenou a memória dele, e o nome dele foi raspado dos monumentos.

Ele também é a resposta a uma pergunta comum: quem era o imperador quando o Apocalipse foi escrito? Irineu, por volta de 180, situa a visão de João no fim do reinado de Domiciano (Contra as Heresias 5.30.3), e a maioria dos estudiosos aceita uma data perto de 95 d.C. Uma minoria prefere 68 ou 69, logo depois de Nero; a discussão está em quem escreveu o Apocalipse.

O que disseram os escritores cristãos

  • Melitão de Sardes, por volta de 170, escreveu a Marco Aurélio que só Nero e Domiciano, instigados por gente mal-intencionada, quiseram difamar a doutrina cristã (citado por Eusébio, História Eclesiástica 4.26.9).
  • Tertuliano, em 197, disse que Domiciano tinha um pedaço da crueldade de Nero, mas que logo parou e até chamou de volta os que tinha exilado (Apologético 5).
  • Eusébio, por volta de 325, fez dele o segundo perseguidor. Conta que Flávia Domitila, sobrinha do cônsul Flávio Clemente, foi exilada na ilha de Pontia, hoje Ponza, por causa da fé, e que Domiciano interrogou dois netos de Judas, irmão de Jesus, e os soltou ao ver as mãos calejadas de lavradores (História Eclesiástica 3.17–20).

O que dizem as fontes romanas

Nenhum autor romano fala de cristãos sob Domiciano. Cássio Dio conta o expurgo de 95: Domiciano executou o próprio primo, o cônsul Flávio Clemente, e mandou a mulher dele, Flávia Domitila, para a ilha de Pandatária, hoje Ventotene. A acusação era “ateísmo”, a mesma que condenou muitos outros que tinham adotado costumes judaicos, uns à morte, outros à perda dos bens (História Romana 67.14). Suetônio acrescenta que Clemente foi morto pela mais leve suspeita (Domiciano 15).

Eram cristãos? Os cristãos das gerações seguintes acharam que sim, e uma grande catacumba na Via Ardeatina, em Roma, ainda leva o nome de Domitila. Mas “costumes judaicos” pode ser só isso mesmo. Domiciano cobrava com dureza o imposto especial dos judeus; Suetônio viu um velho de noventa anos ser examinado no tribunal para saber se era circuncidado (Domiciano 12). O sucessor, Nerva, cunhou moedas com a frase fisci Iudaici calumnia sublata: fim das falsas acusações ligadas ao imposto judaico. E por volta de 112 Plínio, governador da Bitínia, admitiu que nunca tinha assistido a um julgamento de cristãos e não sabia as regras (Cartas 10.96). Isso sugere que não havia uma lei fixa contra eles.

O que o Apocalipse mostra

João escreve de Patmos, onde está “por causa da Palavra de Deus” (Apocalipse 1:9). Só um mártir tem nome.

Conheço as suas obras e onde você habita, onde está o trono de Satanás. Você retém firmemente o meu nome, e não negou a minha fé, mesmo nos dias de Antipas, minha testemunha, meu servo fiel, que foi morto entre vocês, onde Satanás habita.

Apocalipse 2:13

Os cristãos de Esmirna esperam prisão “por dez dias” (2:10). É pressão de vizinhos, de tribunais locais e do culto aos imperadores na Ásia, não uma caçada do imperador. E o livro responde ao título de Domiciano: diante do trono, os anciãos cantam “Digno és tu, Senhor e Deus nosso” (4:11). A expressão lembra a de Tomé, “Senhor meu e Deus meu!” (João 20:28), que muitos católicos brasileiros repetem baixinho na elevação da hóstia. A maioria dos historiadores de hoje, como Leonard Thompson e Brian Jones, não vê perseguição em todo o império sob Domiciano. Vê um imperador odiado, lembrado por senadores hostis e por cristãos que precisavam de um segundo Nero.

Fontes

  • Apocalipse 1:9; 2:10, 13; 4:11; 6:9–10; João 20:28
  • Suetônio, Domiciano 12, 13, 15; Cássio Dio, História Romana 67.14; Marcial, Epigramas 5.8
  • Irineu, Contra as Heresias 5.30.3; Tertuliano, Apologético 5; Eusébio, História Eclesiástica 3.17–20 e 4.26.9
  • Plínio, o Jovem, Cartas 10.96; moedas de bronze de Nerva, 96–97 d.C.
  • Leonard L. Thompson, The Book of Revelation: Apocalypse and Empire (1990); Brian W. Jones, The Emperor Domitian (1992)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.