A resposta curta
Quase certamente não. Quando o grande incêndio começou, em julho de 64 d.C., Nero estava em Âncio, no litoral, a uns 55 km de Roma. Tácito diz que ele voltou e acolheu os desabrigados. A história de que ele cantou a queda de Troia enquanto a cidade ardia era um boato, que só autores posteriores contam como fato.
Revisado em
Onde Nero estava
O fogo começou na noite de 18 para 19 de julho de 64 d.C., em lojas cheias de mercadorias inflamáveis no trecho do Circo Máximo junto ao Palatino e ao Célio. O vento o levou pelas ruas estreitas e tortas da velha Roma. Nero estava em Âncio, a atual Anzio, a cidade litorânea onde tinha nascido, a uns 55 km ao sul.
Tácito, a fonte mais cuidadosa, diz que Nero só voltou quando as chamas chegaram perto da casa que ele tinha construído para ligar o palácio aos Jardins de Mecenas. Aí ele agiu. Abriu o Campo de Marte, os prédios públicos de Agripa e os próprios jardins aos desabrigados, montou abrigos provisórios, trouxe comida de Óstia e baixou o preço do trigo.
A lira e o violino
De nada adiantou, diz Tácito, porque corria o boato de que, enquanto a cidade ardia, Nero subira ao seu palco particular e cantara a destruição de Troia. Tácito registra como boato. Suetônio, escrevendo poucos anos depois, conta como fato: Nero teria assistido do alto da Torre de Mecenas, encantado com a beleza das chamas, e cantado a Tomada de Ílion inteira, com roupa de palco. Cássio Dio, um século depois, o põe no telhado do palácio.
No Brasil, o ditado já dá a Nero o instrumento certo: “Nero tocando lira enquanto Roma ardia”. O dele era mesmo a cítara, a lira grande dos cantores gregos, e ele se apresentava em público, para escândalo da elite romana. O inglês foi mais longe e o pôs tocando violino (fiddle), um instrumento que só surgiu na Itália no século XVI. A versão brasileira acerta a lira. Só que, naquela noite, até a lira é boato.
Foi ele que pôs fogo?
Tácito não sabe: os autores, diz ele, contam das duas maneiras. A suspeita cresceu depois. Quando o fogo parecia apagado, quase uma semana depois, voltou a arder num terreno de Tigelino, o prefeito do pretório de Nero. Dos catorze bairros de Roma, três foram arrasados e sete ficaram em ruínas. Sobre o terreno queimado, Nero ergueu a Casa Dourada, um palácio com parque e lago no meio da cidade. Para muitos romanos, aquilo parecia um motivo. A maioria dos historiadores hoje acha que o incêndio foi, provavelmente, um acidente, numa cidade apinhada de madeira e becos onde fogo era comum.
Os cristãos levam a culpa
Nada, diz Tácito, calava o falatório de que o incêndio tinha sido encomendado. Então Nero arranjou culpados: o povo que os romanos chamavam de cristãos, por causa de Cristo, que Pôncio Pilatos tinha executado no reinado de Tibério. Uns foram vestidos com peles de animais e despedaçados por cães, outros crucificados, outros queimados como tochas à noite nos jardins de Nero. Só Tácito liga essa perseguição ao incêndio, mas é a primeira de que se tem notícia, e a tradição põe sob Nero a morte de Pedro e de Paulo.
Roma já tinha uma igreja. Poucos anos antes do incêndio, por volta de 57 d.C., Paulo tinha escrito a ela:
a todos os que estão em Roma, amados de Deus, chamados para serem santos: Graça e paz a vocês da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo. Primeiramente, dou graças ao meu Deus, por meio de Jesus Cristo, por todos vocês, porque a fé que vocês têm é proclamada em todo o mundo.
Fontes
- Tácito, Anais 15.38–44
- Suetônio, Vida de Nero 16 e 38
- Cássio Dio, História Romana 62.16–18
- Romanos 1:7–8
- Anthony A. Barrett, Rome Is Burning: Nero and the Fire That Ended a Dynasty (2020)