A Guerra Fria · História

Havia mesmo espiões soviéticos nos Estados Unidos?

A resposta curta

Sim. Telegramas soviéticos decifrados pelo Projeto Venona, do Exército americano, e divulgados em 1995 mostram que Moscou tinha fontes no governo dos Estados Unidos e no projeto da bomba atômica na Segunda Guerra e logo depois. Mas a maior parte dessas redes já estava desativada em 1948, antes da caçada de McCarthy, e as acusações dele nunca foram provadas.

Revisado em

A prova veio dos decifradores

A prova saiu do lado americano. Em 1º de fevereiro de 1943, o serviço de decifração de códigos do Exército pôs uma pequena equipe, a começar por uma ex-professora de economia doméstica chamada Gene Grabeel, para trabalhar nos telegramas diplomáticos e de espionagem soviéticos em Arlington Hall, uma escola para moças requisitada na Virgínia. Pressionados pela guerra, os cifradores soviéticos tinham reaproveitado páginas de blocos de chaves feitos para uso único, e, a partir de 1946, o linguista Meredith Gardner começou a recuperar nomes e frases, desde 1948 ao lado do agente do FBI Robert Lamphere.

Só uma pequena parte das mensagens foi decifrada: cerca de 3.000 foram lidas inteiras ou em parte. O programa, que depois ganhou o nome de Venona, ficou em segredo até julho de 1995, quando a Agência de Segurança Nacional começou a divulgar os textos. Venona é o nome dos decifradores, e não de uma rede de espiões.

O que os telegramas mostram

Os telegramas mostram a inteligência soviética com fontes no Departamento de Estado, no Tesouro, no OSS, o serviço de espionagem americano da guerra, e no Projeto Manhattan. Entre os identificados por codinomes estão os físicos Klaus Fuchs e Ted Hall, em Los Alamos, o engenheiro Julius Rosenberg e a rede dele, e Harry Dexter White, alto funcionário do Tesouro. Um telegrama descreve uma fonte de codinome Ales que muitos historiadores identificam como Alger Hiss; outros contestam até hoje.

Nos telegramas, os historiadores John Earl Haynes e Harvey Klehr contaram mais de 300 americanos e residentes no país com laços secretos com a inteligência soviética, muitos nunca identificados pelo nome verdadeiro. Os textos também confirmaram boa parte do que dois ex-mensageiros tinham contado às autoridades: Elizabeth Bentley, que procurou o FBI em 1945, e Whittaker Chambers, que depôs no Congresso em 1948.

Por que quase tudo tinha acabado em 1948

As redes duraram pouco. Em setembro de 1945, Igor Gouzenko, cifrador da embaixada soviética em Ottawa, desertou levando documentos. Em novembro, Bentley começou a entregar nomes ao FBI. Moscou chamou os oficiais de volta e mandou os agentes ficarem quietos. Em 1948, já sabia até da quebra dos códigos, por meio de William Weisband, um agente soviético que trabalhava em Arlington Hall. A essa altura, a maior parte das redes descritas nos telegramas já estava desativada, dois anos antes de McCarthy falar em Wheeling.

Os espiões e as listas

As duas coisas são verdade, e são coisas diferentes. Quem achou os espiões de verdade foram decifradores, desertores e agentes do FBI, com mensagens decifradas e confissões. McCarthy nunca viu o Venona. A lista dele saiu de arquivos velhos do Departamento de Estado, e um subcomitê do Senado chamou as acusações de “uma fraude e uma farsa”. Um dos alvos mais conhecidos foi o especialista em Ásia Owen Lattimore, que McCarthy chamou, em março de 1950, de principal agente soviético do país. Isso nunca foi provado, e um processo posterior contra ele por perjúrio foi arquivado. O Venona não o identifica como fonte.

Os historiadores ainda pesam as duas metades de forma diferente. Haynes e Klehr leem o Venona como prova de que o perigo era real e de que muitos acusados dos anos 1940 eram culpados. Outros, como Ellen Schrecker, aceitam a espionagem, mas argumentam que os expurgos dos anos 1950 atingiram sobretudo gente que não tinha nada a ver com ela. A história do Herald se encerra com uma frase que dá conta das duas metades: “os espiões existiram, e as vidas arruinadas também”. O retrato da época está em O que foi o macarthismo?.

Fontes

  • Telegramas do Venona, Agência de Segurança Nacional dos EUA (divulgados a partir de julho de 1995)
  • Robert Louis Benson e Michael Warner (orgs.), Venona: Soviet Espionage and the American Response, 1939–1957 (NSA e CIA, 1996)
  • Relatório 2108 do Senado, 81º Congresso (subcomitê Tydings, julho de 1950)
  • John Earl Haynes e Harvey Klehr, Venona: Decoding Soviet Espionage in America (1999)
  • Ellen Schrecker, Many Are the Crimes: McCarthyism in America (1998)