A Bíblia · História

Herodes era descendente de Esaú?

A resposta curta

De certo modo, sim. Herodes, o Grande, era idumeu, e os idumeus eram herdeiros de Edom, o povo que o Gênesis faz descender de Esaú: “Esaú é Edom” (Gênesis 36:8). Mas a família dele era judia havia pelo menos duas gerações, desde que os asmoneus obrigaram os idumeus a se converter, e a mãe era árabe nabateia.

Revisado em

Esaú é Edom

O Gênesis transforma os gêmeos em povos antes mesmo do parto: “Duas nações estão em seu ventre” (25:23). Esaú, que nasce ruivo, ganha um segundo nome, Edom, “vermelho”, por causa do ensopado pelo qual troca a primogenitura (25:30). Os descendentes dele ocupam a região montanhosa de Seir, a sudeste do mar Morto, na atual Jordânia.

Esaú habitou na região montanhosa de Seir. Esaú é Edom.

Gênesis 36:8

Em toda a Bíblia, Edom é o povo irmão, vizinho e briguento. Quando a Babilônia toma Jerusalém, em 586 a.C., os edomitas aplaudem: “Arrasem-na! Arrasem-na até os seus alicerces!” (Salmos 137:7). O profeta Obadias condena Edom “por causa da violência feita ao seu irmão Jacó” (Obadias 1:10). Mesmo assim, a lei preserva o parentesco.

Você não abominará um edomita, pois ele é seu irmão.

Deuteronômio 23:7

De Edom à Idumeia

Depois da queda de Judá, os edomitas se instalaram nas colinas do sul da Judeia, em volta de Hebrom e Maressa, e os nabateus, um povo árabe, ficaram com a antiga terra deles, perto de Petra. Os gregos chamaram a nova região de Idumeia. No fim do século II a.C., o governante asmoneu João Hircano a conquistou e, segundo o historiador Flávio Josefo, só deixou os idumeus ficarem se fossem circuncidados e seguissem a lei judaica (Antiguidades Judaicas 13.257–258). Em poucas gerações, eles já contavam como judeus. O Evangelho de Marcos cita gente da Idumeia nas multidões que iam até Jesus (Marcos 3:8), a única vez que o Novo Testamento nomeia a região.

A árvore genealógica

O avô de Herodes, Antipas, governou a Idumeia para os reis asmoneus (Antiguidades 14.10). O pai, Antípatro, fez carreira servindo a Roma, e a mãe, Cipros, era de uma família nobre nabateia. Herodes era, portanto, idumeu e árabe de sangue, judeu de religião e o rei que reconstruiu o Templo (quem ele foi).

Os inimigos usavam essa origem como arma. Na guerra por Jerusalém, o rival Antígono, último rei asmoneu, disse aos romanos que a coroa não podia ir para um plebeu idumeu, ou seja, um meio-judeu (Antiguidades 14.403). O historiador da corte, Nicolau de Damasco, respondeu com uma genealogia que vinha dos judeus ilustres que voltaram da Babilônia; Josefo diz que ele a inventou para agradar o rei (14.9). Já o escritor cristão Júlio Africano guardou uma versão hostil: o avô de Herodes teria servido num templo pagão em Ascalom, e o pai teria sido levado ainda menino por salteadores idumeus (Eusébio, História Eclesiástica 1.6–7).

Irmão ou estrangeiro?

O Deuteronômio manda que o rei de Israel seja “alguém dentre os seus irmãos”, nunca um estrangeiro (17:15). A Mixná conta que o rei Agripa, descendente de Herodes, leu esse versículo em voz alta para o povo na Festa dos Tabernáculos. Os olhos dele se encheram de lágrimas, e a multidão gritou que ele era irmão deles (Mixná, Sotá 7:8). As palavras do povo ecoam Deuteronômio 23:7: o edomita é irmão. Uma lenda do Talmude chega a fazer a cabeça de Esaú rolar para dentro da caverna de Macpela no enterro de Jacó (Sotá 13a). E foi Herodes, herdeiro de Edom, quem ergueu a muralha que ainda cerca esse túmulo da família, em Hebrom.

Por que os rabinos chamavam Roma de Edom

Nos escritos rabínicos, Edom e Esaú viraram apelidos de Roma. Os estudiosos apontam vários motivos. Roma governava a Judeia por meio de um rei idumeu. A bênção de Isaque deu a espada a Esaú, “Você viverá pela sua espada, e servirá ao seu irmão” (Gênesis 27:40), retrato fiel de um império visto de Jerusalém. E as profecias contra Edom podiam ser lidas como promessas contra Roma: “Salvadores subirão ao monte Sião para julgar os montes de Esaú” (Obadias 1:21). Um midrash compara quatro impérios a quatro animais impuros e faz de Edom o porco, que estende o casco fendido como quem diz que é puro (Levítico Rabá 13:5). Quando Roma se tornou cristã, os autores judeus medievais passaram a chamar a cristandade de Edom.

Fontes

  • Gênesis 25:19–34; 27:39–40; 36:1–43
  • Deuteronômio 17:15; 23:7–8; Salmos 137:7; Obadias 1:1–21; Marcos 3:8
  • Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 13.257–258; 14.8–10, 403
  • Eusébio, História Eclesiástica 1.6–7 (citando Júlio Africano)
  • Mixná, Sotá 7:8; Talmude Babilônico, Sotá 13a; Levítico Rabá 13:5

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.