História do Brasil · Mitos

Os inconfidentes queriam acabar com a escravidão?

A resposta curta

Não. Quase todos os inconfidentes eram senhores de escravos. Quando Alvarenga Peixoto sugeriu libertar só os escravizados nascidos no Brasil, para que lutassem pela república, José Álvares Maciel objetou que faltaria quem trabalhasse nas minas, e a ideia não foi adiante. A liberdade que eles queriam era a de Minas diante de Lisboa.

Revisado em

Uma riqueza feita por escravizados

Para entender a resposta, é preciso olhar para quem tirava o ouro. Desde a década de 1690, eram africanos escravizados, às dezenas de milhares, que desviavam rios, abriam barrancos e lavavam cascalho na bateia, com água pela cintura, do nascer ao pôr do sol. Alguns juntavam pó de ouro e compravam a própria liberdade. Outros fugiam e formavam quilombos nas serras. Minas era rica à custa do trabalho forçado dessa gente.

Os homens que tramaram a república em 1788 e 1789 estavam entre os maiores beneficiários desse sistema. Os documentos da devassa mostram o que alguns deles possuíam.

O que os autos mostram

Joaquim Silvério dos Reis, o coronel que acabaria denunciando o grupo, contou ter “muitas fazendas e 200 e tantos escravos”. Quase todos os outros conjurados, poetas, padres, coronéis e fazendeiros, também eram senhores de escravos.

Nem o mais pobre deles escapava da regra. Entre os bens de Tiradentes, o alferes sem fortuna, a devassa registrou uma mulher escravizada, Maria, “de nação Angola”, e o filho dela, Jerônimo, de dois anos. O herói que a República pintaria como mártir da liberdade também tinha pessoas escravizadas.

A proposta que morreu na mesa

O assunto chegou a ser discutido. Alvarenga Peixoto, coronel, minerador e poeta, sugeriu libertar os escravizados nascidos no Brasil, para que pegassem em armas e defendessem a república. Era uma ideia de guerra, e limitada: os nascidos na África continuariam escravizados.

Nem isso passou. José Álvares Maciel, o jovem recém-chegado da Inglaterra, respondeu com a lógica dos donos de lavras: sem os escravizados, “não ficaria em boa ordem o serviço das Minas”. A ideia não foi adiante, e o plano seguiu sem ela.

A ironia do lema

A bandeira que eles discutiam traria um verso de Virgílio, Libertas quae sera tamen, liberdade ainda que tardia. No poema, quem fala é um pastor que, já de barba branca, enfim ganha a liberdade. Um verso sobre um homem que deixa de ser cativo, escolhido por senhores de escravos. A história completa do lema está em O que significa “Libertas quae sera tamen”?.

Por que tanta gente acredita no contrário

A palavra liberdade, repetida no lema, nos discursos e nas aulas de 21 de abril, ajuda a confusão. Para os inconfidentes, ela tinha um alcance preciso: livrar Minas dos impostos e do governo de Lisboa, para homens livres. A Inconfidência Mineira foi uma conspiração da elite contra a Coroa, não contra a escravidão.

A outra liberdade levaria quase um século e teria outros protagonistas: os próprios escravizados, que resistiam, fugiam e compravam alforrias, e os abolicionistas do século XIX. Ela só chegou com a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. Quando a República fez de Tiradentes o seu herói, em janeiro de 1890, a escravidão tinha acabado havia menos de dois anos.

Fontes

  • Autos de Devassa da Inconfidência Mineira: inquirição de José Álvares Maciel (1789) e sentença de 1792
  • Autos de Devassa da Inconfidência Mineira: lista dos bens de Tiradentes
  • Kenneth Maxwell, A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira, Brasil e Portugal, 1750–1808 (1977)
  • Boris Fausto, História do Brasil (1994)