História do Brasil · Mitos

Tiradentes tinha barba?

A resposta curta

Provavelmente não, e ninguém sabe como era o rosto dele. Não existe retrato de Tiradentes feito em vida. A barba e os cabelos longos foram inventados em 1890, a partir de imagens de Cristo. Os autos apontam outro homem: navalhas de barbear entre os bens dele e um companheiro que o descreveu como “feio, e espantado”.

Revisado em

Nenhum retrato em vida

Você conhece o rosto: cabelo comprido repartido ao meio, barba cheia, olhar sereno de quem sofre. Ele está na moeda de cinco centavos, nas estátuas e nos livros de escola. Só que ninguém retratou Tiradentes enquanto ele vivia. Era um alferes sem fortuna, e não deixou imagem.

O que sobrou foram palavras, poucas, nos autos da devassa. Alvarenga Peixoto, poeta e companheiro de conspiração, o descreveu como “feio, e espantado”. E, quando os oficiais listaram o que o alferes possuía, anotaram navalhas de barbear. Navalha não prova rosto liso, mas indica um homem que se barbeava.

O rosto inventado em 1890

O rosto apareceu quando a República precisou dele. Em janeiro de 1890, dois meses depois da queda da monarquia, um decreto fez do 21 de abril, o dia da forca, festa nacional em nome do alferes. No mesmo ano, o desenhista Angelo Agostini o imaginou de barba e cabelos longos, a partir de um Cristo pintado por Van Dyck. O positivista Décio Villares seguiu o mesmo caminho e o desenhou com a corda no pescoço. Em 1893, Aurélio de Figueiredo o pôs na forca, de túnica branca.

Também em 1893, Pedro Américo pintou Tiradentes esquartejado. No alto do cadafalso, a cabeça de barba e cabelos longos aparece ao lado de um crucifixo. O quadro está hoje no Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora.

Por que ele parece Jesus Cristo

A semelhança não é acaso. Os republicanos queriam um mártir, e a imagem de mártir mais forte que os brasileiros conheciam era a de Cristo: um homem traído por um companheiro, condenado pelo poder e morto em público. A história do alferes se prestava à comparação, com um delator no papel de Judas e um condenado que subiu à forca olhando o crucifixo. O quadro de Pedro Américo faz de Tiradentes um mártir no sentido religioso da palavra.

O que o quadro acertou

Uma coisa os pintores acertaram. A túnica branca existiu: era a alva, a veste dos condenados. O frade Raimundo de Penaforte, que o acompanhou até o fim, conta que o carrasco entrou para vesti-la nele, e o alferes tirou a camisa e a vestiu sozinho.

Já a liderança que as pinturas sugerem é outra história. Nos autos, ele é um alferes entre coronéis, padres e juízes, como mostra Tiradentes era o líder da Inconfidência Mineira?.

O rosto que ficou

Depois dos quadros vieram as estátuas. Em 1894, Ouro Preto ergueu a sua no alto de uma coluna, na praça central, diante da antiga cadeia. Em 1926, o Rio inaugurou o Palácio Tiradentes, no lugar da cadeia onde ele passou os últimos dias, com um alferes de bronze de barba e túnica na escadaria. Desde 1998, a moeda de cinco centavos traz o mesmo rosto, ao lado do triângulo da Inconfidência. É o rosto mais famoso da história do Brasil, e foi desenhado por quem nunca o viu. Como o feriado de 21 de abril ajudou a espalhá-lo é outra história.

Fontes

  • Autos de Devassa da Inconfidência Mineira: descrição de Tiradentes por Alvarenga Peixoto; lista dos bens de Tiradentes
  • Pedro Américo, Tiradentes esquartejado (1893), Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora
  • Decreto nº 155-B do Governo Provisório, de 14 de janeiro de 1890
  • José Murilo de Carvalho, A formação das almas: o imaginário da República no Brasil (1990)