História do Brasil · Pessoas

Quem foi Tiradentes?

A resposta curta

Tiradentes era Joaquim José da Silva Xavier, nascido em 1746 perto de São João del-Rei. Órfão cedo, tentou a mineração, arrancava dentes e virou alferes, o posto mais baixo de oficial. Falou de liberdade a quem quisesse ouvir, assumiu a culpa da Inconfidência Mineira e foi o único enforcado, no Rio, em 21 de abril de 1792.

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O nome e o apelido

Joaquim José da Silva Xavier nasceu em 1746, numa fazenda perto de São João del-Rei, em Minas Gerais, e ficou órfão cedo. Não tinha fortuna nem padrinho, duas coisas que, na colônia, abriam quase todas as portas. Tentou a sorte no ouro, sem sucesso.

Aprendeu então um ofício manual: arrancar dentes estragados e pôr outros no lugar, feitos de osso. O apelido veio daí e pegou tanto que hoje pouca gente sabe o nome de batismo dele.

O que era um alferes

Em 1775, entrou para os Dragões de Minas, a cavalaria da capitania, como alferes. Era o primeiro degrau do oficialato, abaixo de tenente e de capitão. A palavra vem do árabe e, em Portugal, já designou o oficial que carregava a bandeira.

Ele nunca saiu desse degrau. Colegas mais novos viraram tenentes e capitães, e ele continuou alferes. Anos depois, preso, diria que agiu desesperado por ter sido preterido quatro vezes nas promoções.

Não era homem de ficar parado. Em 1787 e 1788, passou meses no Rio de Janeiro e entregou ao vice-rei projetos para levar à cidade a água dos ribeirões Andaraí, Catete e Maracanã. Os papéis não saíram da gaveta.

O homem que falava demais

De volta a Minas, encontrou a capitania assustada. O ouro rareava, e a Coroa ameaçava lançar a derrama, uma cobrança extra para cobrir o imposto atrasado. O alferes repetia a quem cruzasse o caminho dele que a terra era rica e o povo vivia pobre, porque a riqueza ia toda para fora. Andava com um livro em francês, a coleção das leis das colônias americanas, impressa em 1778, pedindo que alguém o traduzisse. Um conhecido devolveu os volumes e avisou a todos que fugissem daquele homem, porque estava doido.

Gente bem mais rica que ele ouvia. Poetas, padres e coronéis tramavam uma república em Minas, a conspiração que ficou conhecida como Inconfidência Mineira, e o alferes virou a voz mais alta do grupo.

Preso, confesso, enforcado

A trama foi denunciada em março de 1789, e o mais conhecido dos denunciantes foi o coronel Joaquim Silvério dos Reis. Tiradentes, que estava no Rio, foi preso em 10 de maio, escondido numa casa da rua dos Latoeiros. Negou tudo em três interrogatórios. No quarto, em 18 de janeiro de 1790, confessou ter sido “quem ideou tudo”. A sentença de abril de 1792 mandou onze à forca, mas uma carta da rainha dona Maria I poupou dez. Ele foi a exceção: morreu enforcado no Rio, em 21 de abril de 1792, aos 45 anos.

Qual a importância dele

Durante o Império, o alferes ficou na sombra: o Brasil era governado pelo neto e pelo bisneto da rainha em cujo nome ele foi condenado. Foram os republicanos que o tiraram de lá. Em janeiro de 1890, logo depois da Proclamação da República, o 21 de abril virou festa nacional em nome dele, e o rosto de barba e cabelo comprido que você conhece foi desenhado nessa época, por quem nunca o viu. Em 1965, uma lei o declarou patrono cívico da Nação.

Hoje ele dá nome a uma cidade mineira, a antiga São José del-Rei, está na moeda de cinco centavos e no feriado de 21 de abril. O herói é uma construção da República. O homem foi um alferes sem padrinho que não conseguia ficar calado.

Fontes

  • Autos de Devassa da Inconfidência Mineira (edição da Câmara dos Deputados e da Imprensa Oficial): quarta inquirição de Tiradentes, 18 de janeiro de 1790
  • Sentença da Alçada, Rio de Janeiro, 18 de abril de 1792
  • Lei nº 4.897, de 9 de dezembro de 1965 (declara Tiradentes patrono cívico da Nação Brasileira)
  • Kenneth Maxwell, A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira, Brasil e Portugal, 1750–1808 (1977)
  • José Murilo de Carvalho, A formação das almas: o imaginário da República no Brasil (1990)