A resposta curta
Provavelmente não num estábulo como imaginamos, e Lucas nunca fala em um. Ele diz que Maria deitou o bebê numa manjedoura “porque não havia lugar para eles na hospedaria”, e a palavra que usa, kataluma, costuma significar quarto de hóspedes. Muitos estudiosos imaginam uma casa com os animais dentro; desde o século II, a tradição fala numa gruta.
Revisado em
O que Lucas diz, e o que não diz
Só Lucas descreve o nascimento em si, e faz isso numa frase.
Ela deu à luz o seu filho primogênito. Envolveu-o em faixas de pano e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.
Conte o que está ali: faixas de pano, uma manjedoura, uma hospedaria cheia. Agora conte o que não está: estábulo, animal, estalajadeiro, porta batida na cara de alguém. A manjedoura é o detalhe que importa a Lucas. Ele a cita três vezes, e ela é o sinal dado aos pastores: “um bebê envolto em faixas de pano, deitado em uma manjedoura” (Lucas 2:12, 16). A palavra grega é phatnē, um cocho onde os animais comem.
Hospedaria ou quarto de hóspedes?
A palavra de Lucas para hospedaria é kataluma, e ele só a usa mais uma vez, para a sala da última Páscoa de Jesus:
Digam ao dono da casa: ‘O Mestre te diz: “Onde está o aposento de hóspedes, onde eu possa comer a Páscoa com os meus discípulos?”’
Quando Lucas quer falar de uma hospedaria de verdade, um negócio com dono que cobra, usa outra palavra. O bom samaritano leva o ferido a um pandocheion e paga dois denários ao hospedeiro (Lucas 10:34–35). Por isso muitos estudiosos leem Lucas 2:7 de outro jeito: o quarto de hóspedes já estava cheio, talvez de parentes que também tinham vindo para o recenseamento, e a família se ajeitou em outra parte da casa.
Bichos dentro de casa
Isso combina com a vida na aldeia. A casa típica tinha um cômodo principal, num piso mais alto, onde a família comia e dormia, e uma parte mais baixa, perto da porta, onde os poucos animais da casa passavam a noite. Os cochos ficavam na beira do piso alto ou eram cavados nele. A mulher que Saul procura em En-Dor “tinha em casa um bezerro cevado” (1 Samuel 28:24). O estudioso Kenneth Bailey, que viveu décadas no Oriente Médio, defendia que um bebê deitado num cocho desses não estava num anexo, mas no coração quente de uma casa cheia.
O outro uso de phatnē em Lucas mostra como o estábulo pôde entrar na história. Jesus pergunta se cada um não solta “do estábulo o seu boi ou o seu jumento no sábado” (Lucas 13:15). A mesma palavra cobre o cocho e o lugar onde o animal fica.
A gruta
A tradição mais antiga não fala nem em estábulo nem em casa. Por volta de 155 d.C., Justino Mártir escreveu que José, sem lugar na aldeia, se abrigou numa gruta ali perto (Diálogo com Trifão 78). O Protoevangelho de Tiago, do século II, também põe o parto numa gruta, e por volta de 248 Orígenes conta que em Belém se mostrava a gruta com a manjedoura, conhecida até por quem não era cristão (Contra Celso 1.51). Muitas casas das colinas da Judeia eram construídas sobre grutas ou encostadas nelas, usadas para animais e mantimentos, então casa e gruta podem ser a mesma cena. A Basílica da Natividade ainda está de pé sobre essa gruta, como conta onde fica Belém?
Como o estábulo chegou
O boi e o burro vêm de um profeta, não de Lucas.
O boi conhece o seu dono, e o jumento a manjedoura do seu senhor; mas Israel não conhece.
Em português a ligação salta aos olhos: o jumento conhece a manjedoura do dono. Um evangelho tardio, o do Pseudo-Mateus, pôs os dois animais junto à manjedoura para cumprir o versículo. Em 1223, Francisco de Assis montou um presépio vivo em Greccio, com boi e burro de verdade. A palavra que usamos para a cena vem daí: praesepe, em latim, era justamente o cocho, ou o curral. Depois os pintores deram ao presépio os celeiros das suas próprias terras.
Fontes
- Lucas 2:1–20; 10:34–35; 13:15; 22:7–13
- 1 Samuel 28:24; Isaías 1:3; Mateus 2:11
- Justino Mártir, Diálogo com Trifão 78; Protoevangelho de Tiago 18–19; Orígenes, Contra Celso 1.51
- Kenneth E. Bailey, Jesus Through Middle Eastern Eyes (2008)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.