A resposta curta
Só como uma palavra hebraica, e nunca no Gênesis. O termo lilit aparece uma vez, em Isaías 34:14, entre os bichos que rondam uma terra em ruínas; as Bíblias traduzem criatura noturna, coruja ou Lilith. A história de que ela foi a primeira mulher de Adão vem de um livro judaico medieval, o Alfabeto de Ben Sira.
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O Gênesis só conhece Eva
As primeiras páginas da Bíblia contam duas vezes a criação do ser humano. Em Gênesis 1, homem e mulher são criados juntos, no sexto dia.
Deus criou o homem à sua própria imagem. À imagem de Deus ele o criou; macho e fêmea ele os criou.
Em Gênesis 2, a história recomeça mais de perto. O homem é moldado do pó e vive sozinho entre os animais, até que Deus o faz dormir e forma uma mulher da sua costela (Gênesis 2:21–22). É a única mulher de Adão no texto, e ele lhe dá o nome de Eva (Gênesis 3:20). Não há outra, e não há Lilith.
Os dois relatos intrigavam os leitores antigos. Alguns rabinos imaginaram o primeiro humano como duas metades, depois separadas (Gênesis Rabá 8:1). Um deles falou de uma “primeira Eva” que tinha voltado ao pó (Gênesis Rabá 22:7). Repararam ainda que, ao ver a mulher, Adão diz em hebraico zot ha-pa’am, “desta vez”, como se tivesse havido uma vez anterior. Nenhum desses mestres fala em Lilith.
O único versículo com a palavra
A palavra hebraica lilit aparece uma única vez na Bíblia, num poema contra Edom, vizinho de Israel a sudeste. Isaías descreve as suas cidades abandonadas, espinhos nos palácios e bichos selvagens tomando conta.
Os animais selvagens do deserto se encontrarão com os lobos, e o bode selvagem clamará ao seu companheiro. Sim, a criatura noturna se estabelecerá ali, e encontrará para si um lugar de descanso.
Essa criatura noturna é lilit. Ninguém sabe ao certo o que Isaías quis dizer. Muitos estudiosos pensam numa ave da noite, numa lista cheia de corujas e chacais. Outros ouvem o nome de uma demônia dos encantamentos da Mesopotâmia, as lilitu, espíritos do vento e da noite. As traduções se dividiram do mesmo jeito. A King James inglesa, de 1611, pôs uma coruja. A Vulgata latina, por volta de 400 d.C., pôs lamia, um monstro grego que roubava crianças. Algumas Bíblias modernas em inglês, como a Jerusalem Bible (1966), escrevem Lilith. A Bíblia Portuguesa Mundial fica com criatura noturna.
Seja o que for, a criatura de Isaías mora em ruínas. Não tem nada a ver com o Éden.
De onde vem a primeira mulher de Adão
A história que quase todo mundo conhece vem do Alfabeto de Ben Sira, um livro hebraico anônimo escrito entre os séculos VIII e X d.C. Nele, o sábio Ben Sira, chamado à corte de Nabucodonosor, escreve um amuleto para o filho doente do rei e explica o costume com uma história. Deus fez Lilith da terra, assim como fez Adão. Ela se recusou a ficar por baixo dele, dizendo que eram iguais, porque os dois vinham da terra. Então pronunciou o nome secreto de Deus e saiu voando. Três anjos, Senoi, Sansenoi e Semangelof, a alcançaram no mar, mas ela não quis voltar. Só aceitou poupar os bebês protegidos por um amuleto com os nomes deles.
Os estudiosos ainda discutem se o livro é folclore sério ou uma paródia. É a fonte mais antiga que sobreviveu da história da primeira esposa, escrita mais de mil anos depois de Isaías.
Demônia antes de ser esposa
Lilith já era temida muito antes de virar mulher de Adão. Um dos Manuscritos do Mar Morto, os Cânticos do Sábio, a cita numa lista de demônios a afastar. O Talmude Babilônico aconselha não dormir sozinho em casa, para que Lilith não pegue quem dorme (Shabat 151b). Na Babilônia, entre cerca de 300 e 600 d.C., famílias enterravam tigelas de barro sob a casa, escritas em espiral com feitiços contra as lilits.
A Lilith moderna é ainda mais nova. No Fausto de Goethe (1808), Mefistófeles a aponta como a primeira mulher de Adão. O pintor inglês Dante Gabriel Rossetti a retratou penteando os longos cabelos em Lady Lilith, e no século XX feministas a adotaram como a primeira mulher que se recusou a obedecer. Nada disso está no Gênesis. A Lilith da Bíblia inteira é uma palavra em Isaías, e talvez seja só uma coruja.
Fontes
- Gênesis 1:26–3:20
- Isaías 34:8–15
- Alfabeto de Ben Sira (hebraico, anônimo, séculos VIII a X d.C.)
- Gênesis Rabá 8:1 e 22:7; Talmude Babilônico, Shabat 151b
- Manuscritos do Mar Morto, Cânticos do Sábio (4Q510)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.