A resposta curta
Segundo Daniel 4, sim, mas nenhuma fonte babilônica confirma. Depois de se gabar da “grande Babilônia”, o rei é expulso do meio dos homens e come capim como os bois por “sete tempos”, até recuperar o juízo. Muitos estudiosos acham que a história nasceu com Nabonido, o último rei da Babilônia, que passou dez anos longe da capital.
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O que conta Daniel 4
O capítulo 4 de Daniel é um caso raro na Bíblia. É uma proclamação de um rei pagão, escrita em primeira pessoa e dirigida “a todos os povos, nações e línguas” (Daniel 4:1). Nabucodonosor conta um sonho: uma árvore tão alta que tocava o céu, derrubada por ordem de um “vigilante” santo até sobrar só o toco, preso com ferro e bronze. A árvore, explica Daniel, é o próprio rei. Mas, em vez de uma sentença, ele dá um conselho: rompa com os seus pecados “praticando a justiça” e com as suas iniquidades “demonstrando misericórdia aos pobres” (Daniel 4:27).
Um ano depois, o rei passeia pelo palácio, olha a cidade e pergunta: “Não é esta a grande Babilônia, que eu construí?” Ainda está falando quando uma voz desce do céu.
Na mesma hora, isso se cumpriu em Nabucodonosor. Ele foi expulso do meio dos homens e comeu capim como os bois; e o seu corpo foi molhado com o orvalho do céu, até que o seu cabelo cresceu como as penas das águias, e as suas unhas como as garras das aves.
Passam-se “sete tempos”, que a maioria entende como sete anos. Então ele levanta os olhos ao céu, o entendimento volta, e o reino lhe é devolvido com mais grandeza. A lição aparece três vezes no capítulo: o Altíssimo “domina sobre o reino dos homens” (Daniel 4:17, 25, 32).
O silêncio da Babilônia
Nenhum documento babilônico fala da loucura. Nabucodonosor deixou uma longa série de inscrições reais, quase todas sobre templos, muralhas e canais, e nenhuma sugere um colapso. A Crônica Babilônica, que acompanha as primeiras campanhas dele ano a ano, se interrompe em 594 a.C.; para a maior parte do reinado não há anais. Beroso, o sacerdote babilônico citado por Flávio Josefo, diz apenas que ele adoeceu e morreu depois de 43 anos no trono. A lacuna não prova nada, mas fora da Bíblia não há confirmação.
O rei que abandonou a capital
A melhor pista leva a outro rei. Nabonido, o último soberano da Babilônia, de 556 a 539 a.C., viveu uns dez anos em Tayma, um oásis no deserto da Arábia, na atual Arábia Saudita, e deixou o filho Belsazar cuidando da capital. A Crônica de Nabonido repete ano após ano que o rei estava em Tayma e que a festa de Ano-Novo não foi celebrada. Um poema babilônico hostil, o Relato em Verso de Nabonido, o acusa de desprezar Marduk, o deus da cidade.
Os Manuscritos do Mar Morto trouxeram uma surpresa. Fragmentos de um texto em aramaico achado em Qumran, a chamada Oração de Nabonido (4Q242), põem o próprio Nabonido contando que foi atingido por uma doença maligna durante sete anos, em Tayma, até que um adivinho judeu, um dos exilados, perdoou o pecado dele e o mandou honrar o Deus Altíssimo. Sete anos, Tayma, um rei orgulhoso humilhado, um exilado judeu, louvor ao Altíssimo: as peças se encaixam com Daniel 4.
Por isso muitos estudiosos concluem que uma história sobre Nabonido acabou contada a respeito do muito mais famoso Nabucodonosor. Daniel 5 talvez guarde um vestígio dessa mistura: chama Belsazar, filho de Nabonido, de filho de Nabucodonosor (Daniel 5:2, 11). Os leitores tradicionais respondem que “pai” pode significar antecessor, e que uma corte esconderia um episódio desses, não o registraria. A data do livro é outra discussão: quando Daniel foi escrito.
A loucura tem nome
A psiquiatria tem uma palavra para o delírio de se achar boi, boantropia, e Nabucodonosor é sempre o exemplo citado. Por volta de 1795, o inglês William Blake fez uma gravura colorida da cena: um rei nu, de quatro, com os olhos arregalados de pavor e a barba arrastando no capim. Uma das cópias pertence à Tate Britain, em Londres.
Para Daniel, a loucura passa e a lição fica. O rei que dizia “eu construí” termina a carta louvando o Rei do céu, que “é poderoso para humilhar os que andam na soberba” (Daniel 4:37).
Fontes
- Daniel 4:1–37; 5:2, 11, 18–21
- Oração de Nabonido, Manuscritos do Mar Morto, 4Q242 (gruta 4 de Qumran)
- Crônica de Nabonido (ABC 7) e Relato em Verso de Nabonido, Museu Britânico
- Beroso, citado por Flávio Josefo, Contra Ápion 1.20
- William Blake, Nebuchadnezzar (c. 1795–1805), Tate Britain, Londres
- John J. Collins, Daniel (Hermeneia, 1993)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.