A resposta curta
A maioria dos estudiosos data a forma final do livro de 167 a 164 a.C., na perseguição do rei grego Antíoco IV aos judeus, com histórias de corte mais antigas nos capítulos 1 a 6. A leitura tradicional, judaica e cristã, atribui o livro ao próprio Daniel, na Babilônia do século VI a.C. A pista principal é Daniel 11.
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Duas respostas
O livro se passa na Babilônia entre 605 e 539 a.C., e as suas visões falam em primeira pessoa: “eu, Daniel”. Por muitos séculos, judeus e cristãos o leram como obra daquele exilado, um profeta que anunciava impérios futuros. Jesus fala do “profeta Daniel” (Mateus 24:15). A maioria dos estudiosos modernos, porém, data a forma final do livro da década de 160 a.C. A discussão vem de longe. No século III d.C., o filósofo Porfírio de Tiro defendeu que o livro tinha sido escrito na Judeia, no tempo de Antíoco Epifânio. Sabemos disso porque Jerônimo o citou, para refutá-lo, no Comentário a Daniel, de 407.
A pista do capítulo 11
Daniel 11 é uma longa visão das guerras entre o “rei do sul” e o “rei do norte”, que se lê como a história, em código, dos herdeiros de Alexandre: os Ptolomeus do Egito e os Selêucidas da Síria. Fica mais nítida ao chegar a Antíoco IV, que proibiu as práticas judaicas e profanou o Templo.
Forças enviadas por ele profanarão o santuário, a própria fortaleza, e removerão o holocausto contínuo. Então eles estabelecerão a abominação que causa desolação.
O primeiro livro dos Macabeus data esse altar pagão no Templo do dia 15 de Quisleu do ano 145, isto é, dezembro de 167 a.C. (1 Macabeus 1:54). Daí em diante a visão muda. Prevê mais uma guerra com o Egito e a morte do rei na terra de Israel:
Ele armará as tendas do seu palácio entre o mar e o glorioso monte santo; contudo, ele chegará ao seu fim, e ninguém o ajudará.
Antíoco morreu na Pérsia, no fim de 164 a.C. (1 Macabeus 6:1–16), e o livro não fala da nova dedicação do Templo naquele dezembro, o primeiro Hanukkah. Por isso a maioria dos estudiosos conclui que o texto ficou pronto depois de dezembro de 167 a.C. e antes da notícia da morte do rei. Os leitores tradicionais respondem que os últimos versículos olham mais longe, para o fim dos tempos.
Pistas na língua
Daniel foi escrito em duas línguas. Começa em hebraico, passa para o aramaico no meio de um versículo, quando os caldeus falam ao rei “na língua aramaica” (Daniel 2:4), e volta ao hebraico a partir do capítulo 8. O aramaico do livro empresta palavras persas para cargos do governo, e a música empresta palavras gregas. Três instrumentos da banda de Nabucodonosor (Daniel 3:5) têm nomes gregos, entre eles symphonia, a avó da nossa sinfonia. Quem data o livro mais tarde vê ali o mundo grego depois de Alexandre. Outros respondem que mercadores e soldados gregos circulavam pelo Oriente Próximo muito antes dele.
Testemunhas de fora
- Ben Sirá, por volta de 180 a.C., elogia os heróis de Israel um por um, de Enoque aos doze profetas, mas nunca Daniel (Eclesiástico 44–49).
- A Bíblia hebraica põe Daniel entre os Escritos, não entre os Profetas, uma coleção que muitos estudiosos acham que já estava fechada.
- 1 Macabeus, por volta de 100 a.C., faz o sacerdote Matatias, à morte em 166 a.C., lembrar Hananias, Azarias e Misael “salvos da chama” e Daniel livrado “da boca dos leões” (1 Macabeus 2:59–60).
- Os Manuscritos do Mar Morto incluem oito cópias de Daniel. A mais antiga foi copiada por volta de 125 a.C., uns quarenta anos depois da data que a maioria dá ao livro. Os tradicionais acham pouco tempo para um livro novo virar escritura; outros respondem que um livro para mártires corria depressa.
O que a data muda
Na leitura tardia, a fornalha e os leões são histórias mais antigas, recontadas para judeus obrigados a comer porco e a largar o sábado: fiquem firmes, e “se não” Deus livrar, ainda assim não se curvem (Daniel 3:18). O livro fecha com a promessa mais clara de ressurreição da Bíblia hebraica (Daniel 12:2), para famílias que enterravam os seus mártires. Na leitura tradicional, é profecia escrita séculos antes. Nas duas, o livro termina com uma ordem a Daniel: “sele o livro, até o tempo do fim” (Daniel 12:4).
Fontes
- Daniel 2:4; 3:5–18; 8:14; 11:1–45; 12:2–4; Mateus 24:15
- 1 Macabeus 1:54; 2:59–60; 6:1–16; 2 Macabeus 6:18–7:42; Eclesiástico (Sirácida) 44–49
- Jerônimo, Comentário a Daniel, prólogo (407), sobre Porfírio
- Manuscritos do Mar Morto, cópias de Daniel 1QDan, 4QDan, 6QDan (4QDanc, c. 125 a.C.)
- John J. Collins, Daniel (Hermeneia, 1993)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.