A resposta curta
Algumas. O Evangelho de Tomé, uma coleção de 114 ditos de Jesus encontrada no Egito em 1945, tem versões próprias de cerca de uma dúzia de parábolas de Mateus, Marcos e Lucas, como o semeador, o grão de mostarda, a pérola e a ovelha perdida. Ele as conta mais curtas, sem explicações e muitas vezes com outro sentido.
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O que é o Evangelho de Tomé
Não é uma narrativa. Não tem nascimento, nem milagre, nem julgamento, nem cruz, nem túmulo vazio. O Evangelho de Tomé é uma lista de ditos, quase todos abertos com um simples “Jesus disse”. A primeira linha os apresenta como palavras secretas de Jesus vivo, anotadas por Dídimo Judas Tomé. As edições modernas numeram os ditos de 1 a 114.
O texto completo apareceu em dezembro de 1945. Camponeses que cavavam perto dos penhascos de Nag Hammadi, no Alto Egito, acharam um jarro lacrado com doze livros encadernados em couro e parte de um décimo terceiro. Estão escritos em copta, foram copiados por volta de 350 d.C. e hoje ficam no Museu Copta do Cairo; Tomé é o segundo texto do Códice II. Três fragmentos de papiro em grego, achados antes em Oxirrinco, em 1897 e 1903, se revelaram cópias do mesmo evangelho, do século III.
Muitos estudiosos datam a escrita do século II; outros põem um núcleo antigo de ditos no século I. Ele nunca entrou na Bíblia de igreja nenhuma, e no século IV Eusébio pôs um Evangelho de Tomé entre os livros dos hereges (História Eclesiástica 3.25.6).
As parábolas em comum
As parábolas que estão nos dois, com o número do dito em Tomé:
- A rede (dito 8; Mateus 13:47–50)
- O semeador (9; Marcos 4:3–8)
- O grão de mostarda (20; Marcos 4:30–32)
- O joio e o trigo (57; Mateus 13:24–30)
- O rico insensato (63; Lucas 12:16–21)
- O grande banquete (64; Lucas 14:16–24)
- Os lavradores maus (65; Marcos 12:1–9)
- A pérola (76; Mateus 13:45–46)
- O fermento (96; Mateus 13:33)
- A ovelha perdida (107; Lucas 15:4–7)
- O tesouro escondido (109; Mateus 13:44)
Algumas são quase iguais. O semeador de Tomé perde semente no caminho, na pedra e entre os espinhos, e a terra boa rende sessenta e cento e vinte por medida, mas ninguém explica que a semente é a palavra. A mostarda dele vira uma planta grande que abriga os pássaros, e não uma árvore.
A mesma história, outra lição
Outras mudam de rumo, como a rede de Mateus:
Novamente, o Reino dos Céus é semelhante a uma rede que foi lançada ao mar e apanhou peixes de toda espécie, a qual, quando ficou cheia, os pescadores puxaram para a praia. Eles se sentaram e juntaram os bons em cestos, mas os ruins jogaram fora.
Mateus segue com os anjos separando os maus dos justos no fim dos tempos. Em Tomé, um pescador sábio puxa uma rede cheia de peixes pequenos, encontra no meio um peixe grande e bonito, devolve todos os pequenos ao mar e fica com o grande sem pensar duas vezes. A lição já não é o juízo, e sim escolher a única coisa que importa.
A ovelha perdida também muda. Em Tomé, a que se desgarra é a maior do rebanho, e o pastor, ao achá-la, diz que gosta mais dela do que das noventa e nove. Em Lucas, é uma ovelha qualquer, e a alegria é “por um pecador que se arrepende” (Lucas 15:7). O tesouro escondido de Tomé termina com quem o achou emprestando dinheiro a juros; em Mateus, quem acha vende tudo “em sua alegria” (Mateus 13:44).
Os estudiosos se dividem. Uns acham que Tomé guarda formas antigas das parábolas, sem as explicações posteriores; outros, que o autor conhecia os Evangelhos e adaptou as histórias ao próprio ensino sobre um conhecimento escondido.
O que falta e o que é novo
Várias parábolas queridas nem aparecem em Tomé: nada de filho pródigo, de bom samaritano ou de dez virgens. No lugar, há duas que não existem em nenhum outro texto. Uma mulher leva para casa um jarro de farinha; a alça quebra, a farinha vai caindo pelo caminho sem que ela perceba, e em casa ela encontra o jarro vazio (97). Um homem que quer matar um poderoso treina antes em casa, cravando a espada na parede para testar o braço (98).
Fontes
- Evangelho de Tomé, ditos 8, 9, 20, 57, 63–65, 76, 96–98, 107, 109 (Códice II de Nag Hammadi)
- Papiros de Oxirrinco 1, 654 e 655
- Mateus 13:24–50; Marcos 4:3–32; 12:1–9; Lucas 12:16–21; 14:16–24; 15:4–7
- Eusébio, História Eclesiástica 3.25.6
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.