Roma Antiga · História

O Império Bizantino era o Império Romano?

A resposta curta

Era. O Império Bizantino é a metade oriental do Império Romano, que sobreviveu à queda do Ocidente, em 476, e durou até 1453. Seus habitantes se chamavam de romanos, romaioi em grego, e ao seu Estado de império dos romanos. O nome “bizantino” foi dado por estudiosos ocidentais só depois que ele caiu.

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Um império, duas metades

O Império Romano se dividiu de vez em 395, quando o imperador Teodósio morreu e os dois filhos jovens repartiram o território. Um governou o Ocidente. O outro governou o Oriente a partir de Constantinopla, a cidade que Constantino tinha inaugurado em 330 no lugar de Bizâncio, uma velha cidade grega no Bósforo. Quando o último imperador da Itália foi aposentado, em 476, a metade oriental não começou nada de novo. Simplesmente continuou.

O general que o aposentou, Odoacro, mandou as insígnias imperiais para Constantinopla, com o recado de que um imperador bastava para as duas metades. Um historiador que escrevia em Constantinopla por volta de 551 resumiu assim:

Assim o Império do Ocidente do povo romano … pereceu com este Augústulo … e daí em diante os reis dos godos dominaram Roma e a Itália.

Jordanes, Getica 46.243

Para Jordanes, tinha acabado o império do Ocidente. O império em que ele vivia, não.

Quem inventou o “bizantino”?

Não foi o próprio povo do império, pelo menos não para falar do império. Para eles, Bizâncio era o nome antigo e clássico da capital, e os poucos eruditos que diziam “bizantinos” falavam dos moradores da cidade. O país deles se chamava Rhomanía, de romano, e o soberano era o imperador dos romanos. Os vizinhos concordavam. Os escritores árabes chamavam o império de bilad al-Rum, “a terra dos romanos”, e a sura 30 do Alcorão, Ar-Rum, “Os Romanos”, leva o nome deles. Depois de tomar Constantinopla em 1453, o sultão otomano Maomé II passou a se intitular Kayser-i Rum, César de Roma.

O rótulo veio um século depois. Em 1557, o estudioso alemão Hieronymus Wolf publicou uma coletânea dos historiadores gregos do império com o título de Corpus Historiae Byzantinae. Uma edição muito maior, feita na França sob Luís XIV, espalhou a palavra, e ao longo do século XIX “Império Bizantino” virou o termo padrão.

Por que o Ocidente parou de dizer romano

A Europa ocidental tinha os seus motivos. Em 800, o papa Leão III coroou Carlos Magno imperador dos romanos, em Roma. Daí em diante, com os papas e os imperadores do Ocidente reclamando a herança de Roma, os escritores latinos passaram a chamar os imperadores do Oriente de “gregos”. Os romanos do Oriente nunca aceitaram. Nome também é política: se o Oriente era grego, ou bizantino, o título romano ficava livre para o Ocidente. Em português ficou um rastro dessa desconfiança: uma discussão bizantina é uma discussão inútil, cheia de sutilezas sem fim.

Por que os historiadores ainda usam a palavra

Porque o império mudou. Depois de Justiniano, no século VI, o latim foi sumindo e o grego virou a língua do governo e das leis. O império era cristão, centrado em Constantinopla, e depois das conquistas árabes do século VII ficou bem menor que no tempo de Trajano. A palavra marca esse mundo novo. Muitos historiadores hoje preferem “Império Romano do Oriente”, ou simplesmente chamam aquele povo do que ele se chamava.

Mas a continuidade é real. Justiniano, que falava latim e vinha dos Bálcãs, retomou o norte da África em 533 e 534 e boa parte da Itália depois, e reuniu o direito romano no código que ainda está na base do direito civil da Europa e da América Latina, o Brasil incluído. Os imperadores se viam como herdeiros de Augusto, numa linha que atravessou revoltas e a ocupação dos cruzados, de 1204 a 1261, até Constantino XI, que morreu defendendo Constantinopla em 29 de maio de 1453.

Fontes

  • Jordanes, Getica 46.243
  • Anônimo Valesiano 8.37–38; Malco, fragmento 14 (as insígnias enviadas a Zenão)
  • Alcorão, sura 30 (Ar-Rum)
  • Procópio, Guerra Vândala (a reconquista da África por Justiniano)
  • Hieronymus Wolf, Corpus Historiae Byzantinae (1557)
  • Anthony Kaldellis, Romanland: Ethnicity and Empire in Byzantium (2019)