A resposta curta
No cenário, quase sempre; na trama, não há como provar. O rei Assuero é Xerxes I (486–465 a.C.), e a Susã do livro, com mensageiros e costumes de corte, bate com as fontes gregas e persas. Mas Heródoto chama a rainha de Xerxes de Améstris, e nenhum registro fora da Bíblia cita Vasti, Ester, Mardoqueu ou Hamã.
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O que o livro afirma
Ester se apresenta como história. Começa com um império real, que ia “desde a Índia até a Etiópia”, e termina mandando o leitor conferir os arquivos persas.
Não estão todos os atos do seu poder e da sua força, e o relato completo da grandeza de Mardoqueu, à qual o rei o exaltou, escritos no livro das crônicas dos reis da Média e da Pérsia?
Essas crônicas nunca apareceram. Então o teste é outro: a Pérsia do livro bate com a que conhecemos por outras fontes?
O que confere
- O rei. Assuero é a forma hebraica do nome persa Khshayarsha, que os gregos escreveram Xerxes. Xerxes I reinou de 486 a 465 a.C. Os tradutores gregos, e Josefo depois deles, o chamaram de Artaxerxes, mas a maioria dos estudiosos hoje o identifica com Xerxes.
- O calendário. O grande banquete cai no terceiro ano do rei (Ester 1:3), e Ester é levada a ele no sétimo (2:16). Nesse intervalo, conta Heródoto, Xerxes estava invadindo a Grécia: Termópilas e Salamina, em 480 a.C.
- O palácio. Arqueólogos franceses escavaram o palácio de Susã a partir da década de 1880, com colunas coroadas por touros esculpidos; um desses capitéis está no Louvre.
- A lista dos benfeitores. A trama de Ester depende de uma crônica real que registra quem salvou o rei (Ester 6:1–3). Heródoto conta que escribas ao lado de Xerxes, em Salamina, anotavam os nomes dos capitães que lutavam bem, e que os persas chamavam os benfeitores premiados do rei de orosangai (Histórias 8.85, 8.90).
- Os mensageiros. Os cavaleiros de revezamento de Ester batem com o correio real de Heródoto, que nem neve, nem chuva, nem calor, nem noite detinham (8.98). A frase acabou gravada na fachada da antiga agência central do correio de Nova York.
O que não confere
Heródoto, a principal fonte grega sobre Xerxes, conhece a rainha dele como Améstris, uma mulher capaz de mandar enterrar vivos catorze crianças de famílias nobres persas (Histórias 7.61, 7.114). Ele também fala de uma regra: o rei só se casava com mulheres de sete famílias nobres (3.84), o que uma rainha judia e órfã quebraria. Heródoto divide o império em vinte satrapias (3.89); Ester conta 127 províncias. O suborno de Hamã, dez mil talentos de prata (Ester 3:9), dá cerca de dois terços de todo o tributo anual do império pelas contas do próprio Heródoto (3.95). E, se quem foi “levado de Jerusalém” com o rei Jeconias em 597 a.C. é o próprio Mardoqueu (Ester 2:5–6), ele teria bem mais de cem anos no reinado de Xerxes. Muitos leem ali o bisavô dele, Quis.
Nenhuma inscrição persa cita Vasti, Ester, Mardoqueu, Hamã ou o decreto. Tabuinhas de barro de Persépolis registram vários funcionários chamados Marduka, o mesmo nome babilônico de Mardoqueu, formado com o nome do deus Marduk. O nome combina com a época. Se algum deles é o primo de Ester, ninguém sabe dizer.
Qual a idade da história?
Ester é o único livro da Bíblia hebraica que não aparece entre os Manuscritos do Mar Morto. A versão grega acrescenta 107 versículos, com orações e o texto completo das cartas reais. A menção mais antiga à história fora do livro está em 2 Macabeus 15:36, do século II a.C., que chama o dia 14 de adar de “dia de Mardoqueu”.
O que dizem os estudiosos
Muitos estudiosos leem Ester como uma novela histórica: uma história ambientada com cuidado numa corte real e contada com o ritmo de um bom narrador, do rei que perde o sono à forca que troca de dono. Outros a defendem como história, lembram os detalhes certeiros e sugerem que Vasti ou Ester podem se esconder atrás de outros nomes nas fontes gregas, ou ter sido esposas que os gregos nunca citaram. De um jeito ou de outro, a Pérsia do livro é reconhecível, e a festa que ele explica, o Purim, é guardada há mais de dois mil anos.
Fontes
- Ester 1:1–3; 2:5–16; 3:9; 6:1–3; 10:2; Esdras 4:6; 2 Macabeus 15:36
- Heródoto, Histórias 3.84, 3.89, 3.95, 7.61, 7.114, 8.85, 8.90, 8.98
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 11.184–296
- Edwin M. Yamauchi, Persia and the Bible (1990)
- Jon D. Levenson, Esther: A Commentary (1997)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.