Mitos gregos · Fatos

O que aconteceu com Faetonte?

A resposta curta

Ele destruiu a carruagem do Sol. Nas Metamorfoses de Ovídio, Faetonte faz o pai, o Sol, jurar que vai atender a qualquer pedido e pede para conduzi-la por um dia. Os cavalos disparam, a terra pega fogo, e Zeus o derruba com um raio no rio Erídano. As irmãs dele, inconsoláveis, viram álamos que choram âmbar.

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Um filho atrás de provas

Ovídio começa a história no fim do livro 1 das Metamorfoses. Faetonte se gaba de ser filho do Sol, e o amigo Épafo, filho de Júpiter, cai na risada: “Coitado, você está delirando.” Envergonhado, Faetonte pede uma prova à mãe, Clímene. Ela ergue os braços para o céu e jura pelo próprio Sol que é verdade. Que ele vá perguntar ao pai, diz ela; a casa dele fica onde o dia nasce.

Quem era o pai de Faetonte? Ovídio o chama de Sol e, muitas vezes, de Febo, nome que ele divide com Apolo. Para os gregos, era Hélio. Autores posteriores fundiram o Sol com Apolo, e por isso algumas versões fazem de Apolo o pai; a página sobre os nomes romanos dos deuses gregos desfaz a confusão.

O juramento e a carruagem

No palácio de ouro e prata, o Sol tira a coroa de raios, abraça o rapaz e, para acabar com qualquer dúvida, jura pelo Estige, o juramento que nem os deuses podem quebrar, que vai lhe dar o que ele pedir. Faetonte pede a carruagem do Sol por um dia.

O pai se arrepende na mesma hora: “pois você é mortal, e aspira a coisas imortais.” Fala da subida íngreme, dos cavalos que cospem fogo, das feras do zodíaco, e dá uma única regra: “O caminho mais seguro é o do meio.” Mas promessa é dívida.

O dia em que o mundo ardeu

Os quatro cavalos sentem a carga leve e saem da estrada. Faetonte não sabe o nome deles, e mesmo que soubesse não conseguiria contê-los. Ao ver o Escorpião do zodíaco, larga as rédeas. A carruagem sobe demais e queima o céu, depois desce demais e incendeia a terra. Ovídio enumera as montanhas em chamas, do Atos e do Etna até os Alpes; a Líbia vira deserto, e o Nilo foge e esconde a nascente, que continua escondida até hoje, segundo ele.

A própria Terra ergue o rosto queimado e pede a Zeus, o Júpiter de Ovídio, que faça alguma coisa. Ele lança um raio. A carruagem se despedaça, e Faetonte cai com os cabelos em chamas, como uma estrela cadente, no distante rio Erídano, que os romanos identificavam com o Pó, no norte da Itália. As ninfas das terras do oeste o enterram e gravam o epitáfio:

Aqui jaz Faetonte, que guiou a carruagem de Febo: se muito falhou, muito mais ousou.

Ovídio, Metamorfoses 2.327–328

Âmbar, um cisne e uma palavra

Por um dia inteiro, conta Ovídio, o Sol de luto não aparece, e o mundo em chamas é a única luz. As irmãs de Faetonte, filhas do Sol, choram no túmulo durante quatro meses, até que os pés criam raízes e a casca se fecha sobre elas. Viram álamos, e as lágrimas endurecem em âmbar, que o rio leva “para enfeitar as mulheres latinas”. Cicno, parente do rapaz, chora tanto que vira cisne, uma ave que até hoje prefere a água e foge do fogo do céu.

Em grego, âmbar se diz elektron. Esfregado, o âmbar atrai poeira e palha, e em 1600 o médico inglês William Gilbert criou a partir dele a palavra latina electricus. Daí vieram eletricidade, elétrico e, no fim do século XIX, elétron. Cada interruptor carrega um pouco daquelas lágrimas, que voltam a aparecer entre os presentes de Pigmalião para a estátua.

O nome do cocheiro também sobreviveu. No século XVIII, o faetonte era uma carruagem aberta, leve e rápida, batizada em homenagem ao rapaz imprudente. E todo mês de dezembro a chuva de meteoros Geminídeas sai da poeira do asteroide 3200 Faetonte, descoberto em 1983.

Fontes

  • Ovídio, Metamorfoses 1.747–779 e 2.1–400
  • William Gilbert, De Magnete (1600)