A resposta curta
Não. Nas Metamorfoses de Ovídio, onde a história é contada, a estátua de marfim que ganha vida não tem nome nenhum. “Galateia” só aparece no século XVIII, sobretudo com o Pigmalião de Jean-Jacques Rousseau, escrito em 1762, e pegou nas peças seguintes. Em Ovídio, Galateia é outra personagem: uma ninfa do mar cortejada por um ciclope.
Revisado em
A história que Orfeu canta
Ovídio a conta no livro 10 das Metamorfoses, como uma das canções de Orfeu. Pigmalião, escultor de Chipre, desistiu das mulheres ao redor e vive sozinho. Esculpe em marfim branco como a neve uma mulher mais bela que qualquer outra já nascida e se apaixona pela própria obra.
A estátua é tão viva que só o pudor parece impedi-la de se mexer: “Assim a arte dele esconde a própria arte.” Ele não para de tocá-la para ter certeza de que é marfim, fala com ela baixinho e leva os presentes de que as moças gostam: conchas, passarinhos, flores, bolas pintadas e contas de âmbar, as lágrimas das irmãs de Faetonte. Veste-a com roupas, põe anéis nos dedos dela e um colar comprido no pescoço.
No dia da festa de Afrodite, que Ovídio chama de Vênus, a ilha inteira lota os altares. Pigmalião não ousa pedir a própria estátua. Pede “uma igual à minha donzela de marfim”, e a deusa, que entende muito bem o recado, faz a chama do altar subir três vezes. Em casa, ele pega a mão da estátua. Está morna. O marfim amolece sob os dedos como cera ao sol. “Sim, era carne de verdade!” Ela abre os olhos e vê, no mesmo instante, o céu e o homem que a ama. Ovídio acrescenta que os dois tiveram uma criança, Pafos, nome da cidade cipriota consagrada a Vênus.
Do começo ao fim, Ovídio a chama de marfim, de imagem, de donzela. Nunca lhe dá um nome.
De onde veio Galateia
O nome é coisa do século XVIII. O Pigmalião de Jean-Jacques Rousseau, uma peça curta com música, escrita em 1762 e encenada pela primeira vez em Lyon em 1770, chama a estátua de Galathée, e o nome grudou nela. A comédia Pygmalion and Galatea, do inglês W. S. Gilbert (1871), consagrou a forma no teatro de língua inglesa. De Ovídio a Rousseau são uns 1.750 anos.
O nome, aliás, já estava no poema de Ovídio, só que em outra mulher: a nereida Galateia, filha de Nereu, cortejada no livro 13 pelo ciclope Polifemo, o mesmo gigante que mais tarde enfrenta Odisseu. Em grego, o nome remete a gala, leite, o que combina com uma mulher esculpida em marfim branco.
Eliza e My Fair Lady
O Pigmalião de George Bernard Shaw (1913) transforma a estátua em Eliza Doolittle, uma florista de Londres a quem o professor de fonética Henry Higgins ensina a falar como uma duquesa. Shaw fazia questão de que Eliza não se casasse com o professor. O musical My Fair Lady (1956) pôs a história em música e deixou o final mais romântico; no Brasil, o filme de 1964 se chamou Minha Bela Dama.
O efeito Pigmalião
Em 1968, os psicólogos Robert Rosenthal e Lenore Jacobson publicaram Pygmalion in the Classroom. Numa escola primária, os professores ouviram que certos alunos estavam prestes a deslanchar; esses alunos tinham sido sorteados, e mesmo assim muitos avançaram mais que os colegas nos testes seguintes. O efeito Pigmalião é a ideia de que as pessoas tendem a corresponder ao que se espera delas. Até hoje se discute o tamanho desse efeito, mas o nome pegou, como pegou o de Galateia.
Fontes
- Ovídio, Metamorfoses 10.243–297 e 13.738–897
- Jean-Jacques Rousseau, Pygmalion, scène lyrique (1762)
- W. S. Gilbert, Pygmalion and Galatea (1871); George Bernard Shaw, Pygmalion (1913)
- Robert Rosenthal e Lenore Jacobson, Pygmalion in the Classroom (1968)