A resposta curta
Vitória de Pirro é uma vitória que custa tanto ao vencedor que vale como uma derrota. A expressão vem de Pirro, rei do Épiro, que venceu os romanos em Heracleia, em 280 a.C., e em Ásculo, em 279 a.C., mas perdeu soldados que não tinha como repor. Plutarco conta que ele disse que mais uma vitória dessas o arruinaria.
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O rei que venceu Roma duas vezes
Pirro governava o Épiro, um reino grego onde hoje ficam o noroeste da Grécia e o sul da Albânia. Era primo em segundo grau de Alexandre, o Grande, e um dos melhores generais do seu tempo. Em 280 a.C., a cidade grega de Tarento, no salto da bota italiana, estava em guerra com Roma e pediu socorro a ele. Pirro atravessou o mar com uns 20.000 infantes, 3.000 cavaleiros e 20 elefantes de guerra, bichos que nenhum exército romano tinha enfrentado. Plínio conta que os romanos, que os viram pela primeira vez na Lucânia, os chamaram de bois lucanos.
Duas vitórias, um exército
Em Heracleia, em 280 a.C., os elefantes espantaram a cavalaria romana, e Pirro venceu. Plutarco cita dois historiadores antigos que não concordavam sobre o preço. Um contou uns 7.000 romanos mortos, o outro quase 15.000, e as perdas do rei ficaram entre menos de 4.000 e até 13.000. De um jeito ou de outro, ele tinha perdido veteranos que o Épiro não podia substituir.
Depois da batalha, mandou o seu conselheiro Cíneas a Roma para oferecer a paz. O velho censor Ápio Cláudio, cego havia anos, mandou que o carregassem até o Senado para falar contra o acordo, e o Senado recusou. Cíneas voltou com dois relatos famosos. O Senado, disse ele, parecia um conselho de muitos reis. E lutar contra Roma era como lutar contra a Hidra, o monstro que ganhava cabeças novas, porque o cônsul já tinha o dobro de homens de antes.
Em Ásculo, em 279 a.C., os exércitos lutaram dois dias. Pirro venceu de novo. Plutarco, seguindo as memórias do próprio rei, dá 6.000 romanos mortos contra 3.505 homens de Pirro. Vem então a frase que deu origem à expressão.
Pirro disse a alguém que o felicitava pela vitória: “Se vencermos mais uma batalha contra os romanos, estaremos completamente arruinados.”
Ele tinha perdido, explica Plutarco, boa parte do exército que trouxe e quase todos os amigos e generais. Não conseguia gente nova em casa, e os aliados italianos estavam desanimando. Roma simplesmente levantava novas legiões.
O que aconteceu com Pirro
Ele passou à Sicília para lutar contra Cartago, voltou e, em 275 a.C., foi derrotado perto de uma cidade chamada Maleventum. Os romanos depois a rebatizaram de Beneventum, trocando um nome que soava como “mau resultado” por um que queria dizer “bom resultado”. Ainda hoje é Benevento. Pirro voltou para casa com uma fração do exército. Em 272 a.C., lutando nas ruas de Argos, na Grécia, foi atingido por uma telha que uma velha atirou do alto de uma casa, ficou atordoado e foi morto.
Como a expressão é usada
Vitória de Pirro é qualquer vitória que arrasa quem venceu: a batalha que sangra o exército, o processo que deixa falido quem ganhou a causa, o time que leva o clássico mas perde o craque machucado para o resto do campeonato. A questão não é a vitória ter sido apertada. É ter saído cara demais. No Brasil, a expressão é figurinha fácil no noticiário de política e de futebol. A lição de Plutarco vai mais fundo: Pirro ganhava batalhas e nunca ganhou a guerra, porque enfrentava uma cidade que sempre conseguia encher as fileiras de novo.
Fontes
- Plutarco, Vida de Pirro 15–34
- Plínio, o Velho, História Natural 8.16 (os bois lucanos) e 3.105 (Benevento)
- Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas 19–20 (fragmentos sobre a guerra contra Pirro)